Pasto Apícola


ABACATEIRO Persea americana e Persea nubigena

Dr. João Martins Ferreira é Professor Titular da Universidade Paulista UNIP, Pesquisador junto à Universidade de São Paulo, Jornalista e Apicultor.
Site: martinsferreira.net – Contato: [email protected]

Figura1_Pasto-apicolaDentre as plantas que fornecem alimento para as abelhas, geralmente temos uma atenção especial com aquelas possam vir a oferecer algum alimento também para nós, e sabemos que quase sempre os frutos que obtemos a partir de tais plantas dependem imensamente da polinização realizada pelas esforçadas operárias. Daí ser fácil compreendermos a grande importância desses insetos para o sustento dos seres humanos e de outros seres da natureza. Obtemos mel e vários produtos diretamente das abelhas, mas também é por causa delas que indiretamente obtemos expressivas quantidades de frutas, legumes, cereais e outros alimentos indispensáveis para o nosso sustento, alcançando ainda, pela mesma razão, alta qualidade nas produções agrícolas. O fruto do Abacateiro, um alimento excelente para a nutrição e a saúde de nosso organismo, é um ótimo exemplo disso.

Quase todo apicultor sabe que presença de agentes polinizadores em um pomar ou horta poderá aumentar a produtividade das plantas. Diversas pesquisas e estudos já comprovaram isso e no caso do Abacateiro tais agentes são fundamentais.

Essa planta é originária das regiões centrais do continente americano, localizadas entre o México e o Panamá, e atualmente está disseminada pelo mundo, apresentando uma grande variedade de tipos e qualidades. Antes da chegada de povos europeus às américas, abacateiros foram cultivados por nativos na América do Sul até a região do Peru. Após as colonizações espanholas e portuguesas no século XVI, o cultivo dessa planta se alastrou e ela acabou se adaptando bem a certos climas característicos de algumas regiões brasileiras. Oficialmente, foi Luiz de Abreu Vieira e Silva quem, em 1809, trouxe da Guiana Francesa quatro mudas, às quais foram levadas para o Rio de Janeiro e oferecidas ao rei D. João VI, que as mandou plantar no Real Horto, atual Jardim Botânico do Rio de Janeiro, de onde saíram sementes para o cultivo em outras partes do Brasil.

A ótima produtividade da Persea americana após a polinização das abelhas – Foto de João Martins Ferreira.

A ótima produtividade da Persea americana após a polinização das abelhas – Foto
de João Martins Ferreira.

Após análises científicas, os abacateiros foram separados em três grupos: o Mexicano, ou Persea americana Miller var. drymifolia, melhor adaptado ao clima semitropical, que apresenta folhas com odor de anis e fruto com casca de espessura fina, o Antilhano, ou Persea americana Miller var. americana, melhor adaptado ao clima tropical, que apresenta folhas cor verde claro, sem odor de anis, é pouco resistente ao frio e seu fruto tem casca de espessura média, e o Guatemalense, ou Persea nubigena Williams var. guatemalensis, de clima subtropical, com folhas verde escuro e fruto com casca de espessura grossa. As subespécies são intercruzáveis e originaram variedades modernas de abacateiro. Sabe-se que depois de 1925 variedades mexicanas, guatemalenses e híbridas foram introduzidas em nosso país.

O Abacateiro é uma árvore que cresce rapidamente, atingindo geralmente entre 8 metros e 20 metros de altura. Aprecia o sol e um ambiente quente e úmido – alguns tipos, como o Mexicano, são mais resistentes a geadas do que outros. É uma planta que não gosta de solos encharcados, mas que consome muita água da área em que esteja cultivada. Ela é sensível a ventos, os quais prejudicam sua frutificação. Seu tronco é pouco reto e chega a atingir um metro de diâmetro após cerca de trinta anos. A folhagem geralmente é perene. As folhas têm tamanho que variam entre 10 cm e 30 cm, são verdes, brilhantes na parte superior e com um verde acinzentado fosco na parte inferior. As flores são abundantes, completas e pequenas, com cerca de 1 cm de diâmetro, e costumam surgir na planta entre os meses finais do inverno e os meses finais da primavera. Elas oferecem néctar e pólen para as abelhas, sendo que a concentração do néctar em açúcares na Persea americana fica entre 44% e 49% – podendo ser essa taxa um pouco menor em algumas outras espécies. Os frutos podem ser pequenos, com menos de 100 gramas em algumas espécies, ou podem ser grandes em outras, chegando a pesar 1.500 gramas. Eles variam em suas formas, podendo ser redondos, ovais, piriformes, ou de pescoço, com cores de tons diversos, indo do verde até o castanho, ou roxo, e possuem uma única semente, grande e com formato esférico, que pode servir para a reprodução da planta, sendo alta a taxa de germinação – existe também a reprodução por meio de enxertia.

Para que produzam frutos, é preciso que várias árvores dessas espécies sejam plantadas próximas, haja vista que a troca de pólens entre as flores de plantas diferentes é fundamental nesse sentido. Em um único Abacateiro existem flores femininas e flores masculinas, sendo que elas se abrem alternadamente, apenas pela manhã, ou no fim da tarde, de modo que a polinização não poderá ocorrer no caso de uma planta solitária, posto que a abertura das flores femininas e das masculinas não coincidem no mesmo horário. Assim, existindo mais árvores em uma mesma região, as abelhas e outros agentes polinizadores possibilitarão que ocorra de fato o processo de fecundação, visitando flores femininas em uma planta e flores masculinas em outra alternadamente, mas num mesmo momento do dia.

Um pássaro se alimenta do fruto do Abacateiro. – foto de João Martins Ferreira.

Um pássaro se alimenta do fruto do Abacateiro. – foto de João Martins Ferreira.

Os nomes populares que as espécies Persea americana e semelhantes costumam receber são: Abacate, Abacado, Abacateiro, Loiro-abacate, Louro-abacate, Palta, Avocat, Avocado e Pêra-abacate, no entanto há mais de quinhentas categorias de abacate, estando entre os que são mais conhecidos e comercializados aqueles que recebem denominações como: Fortuna, Prince, Geada, Margarida, Hass, Fucks, Breda, Ouro Verde, Oro Negro, Quintal, Wagner, Pollock, Collinson, Linda, Taylor, Barker, Princesa, Simmonds, Milênio, Miguel, Pinkerton, Bacon, Fuerte, Reed, Lula, Zutano, Choquette, Russell, Gwen, Brogdon, Yamagata e Bernecker. Existem algumas outras plantas com características físicas parecidas com as do Abacateiro mais comum, porém elas produzem frutos bem diferentes do abacate, os quais não são próprios para o consumo humano. Entretanto tais árvores são igualmente interessantes em termos apícolas, bem como são relevantes no fornecimento de alimentação para a fauna. Dentre estas estão o Abacateiro do Brejo e o Abacateiro do Mato.

Anualmente, um único Abacateiro pode produzir mais de duzentos frutos. É importante que eles sejam colhidos, pois podem vir a causar algum dano ao caírem espontaneamente, ou mesmo causar sujeira e odor incômodo caso caiam e permaneçam se decompondo ao redor da árvore. Por tal razão e por se tratar de uma árvore grande, que proporciona denso sombreamento, é preciso atenção na escolha do local adequado para plantá-la – seu plantio em calçadas, nas cidades, por exemplo, pode vir a ser problemático. Os frutos devem ser retirados da árvore ainda verdes, quando estiverem grandes, firmes, totalmente formados, sendo a seguir acondicionados, com vistas aos seus lentos amadurecimentos. A parte comestível é a polpa, que tem uma consistência cremosa, com viscosidade parecida com a da manteiga, sendo oleosa e muito saborosa, de cor creme, entre o amarelo e o verde, situada entre a casca e a semente do fruto. Ela pode ser consumida crua, cozida, ou em conserva, e combina bem com pratos salgados, como sopa, patê, ou salada, bem como com pratos doces, como sobremesa, vitamina, ou suco. O limão e o mel são alimentos que costumam se associar bem com a polpa do abacate, enriquecendo seu sabor e acrescentando benefícios ao nosso organismo.

A cremosa polpa e o grande caroço do fruto da Persea americana.– Foto de João Martins Ferreira.

A cremosa polpa e o grande caroço do fruto da Persea americana.– Foto de João
Martins Ferreira.

O valor nutricional do abacate, fruto do Abacateiro, é excepcional. Ele é rico em calorias: em 100 gramas há cerca de 218 calorias. Se compararmos com 100 gramas de alguns outros alimentos, é possível a constatação desse potencial: a laranja conta com 50 calorias, o leite, com 72 calorias, a banana, com 98 calorias e os ovos, com 166 calorias. Portanto, trata-se de um alimento que fornece bastante energia para nosso corpo, o que justifica a fama desse fruto como um rico alimento, além de ser saudável e muito acessível, características que podem contribuir substancialmente, por exemplo, no combate à fome de pessoas que se encontrem em situação de penúria – nesse aspecto, há inclusive alguns relatos antigos que apontam que famílias inteiras chegaram a serem salvas da desnutrição graças ao consumo constante do abacate.

Quando comparamos o abacate com algumas outras frutas em termos nutricionais, percebemos o quanto ele é importante para a alimentação humana. Se comparado com frutas frescas como a banana, a uva ou a maça, o abacate possui metade dos açúcares dessas frutas e tem o dobro (ou mais) de proteínas. Algumas pessoas, inclusive, declararam que consumir um grande abacate equivaleria a uma refeição. Análises do fruto mostraram a presença de vitaminas dos tipos A, D e E, além de B e C em menores proporções, bem como de valorosos sais minerais. O teor de óleo na polpa do fruto é elevado, sendo que este apresenta benefícios semelhantes aos que o óleo de oliva provoca em nosso organismo. Por apresentar alta concentração de gordura, deve ser consumido com moderação por quem tenha tendência à obesidade. Nas palavras de Hilton Claudino, “trata-se de um alimento completo por excelência (…)”, “um verdadeiro bálsamo para o coração e os vasos sanguíneos” (Claudino, 2020, p. 45).

O Abacateiro também é utilizado popularmente com fins medicinais e cosméticos, sendo que suas potencialidades curativas têm sido cada vez mais estudadas por muitos pesquisadores. Além da polpa de seu fruto, igualmente são úteis a semente, bem como as folhas e outras partes da planta. Com a semente ralada, pode-se preparar um suco próprio para tonificar o couro cabeludo ou, após torrá-la, preparar um pó que combate algumas enfermidades intestinais. A pesquisadora Dania Messmar aponta que os estudos sobre a “produção e utilização de um fitoterápico a base do extrato das sementes de Persea americana” mostram-se promissores, sendo que em suas análises ela comprovou as qualidades da semente do abacate como auxiliar “no tratamento de dores crônicas, incluindo a osteoartrite” (Messmar, 2013). O chá das folhas do Abacateiro também é útil em alguns tratamentos, mas ele deve ser feito com folhas secas, para que se evitem efeitos colaterais indesejáveis. O consumo da polpa do abacate contribui no combate à anemia, ao artritismo, à gota, ao estresse, à insônia, à indisposição, à hipertensão, à rouquidão, além de propiciar melhoras aos rins e à bexiga, possibilitar equilíbrio nas taxas do colesterol e ser benéfico às articulações. O óleo presente no fruto é indicado no tratamento de pele e de cabelos ressecados.

Com tantas qualidades positivas como essas, torna-se substancial que o apicultor dedique atenção a tal planta e que os pesquisadores a estudem cada vez com maior profundidade. Ela é de grande valia para nós, seres humanos, e também para muitos insetos, pássaros e animais. Com ela se pode combater a fome, a desnutrição e as enfermidades, entre outras coisas, e por mais incrível que possa parecer, até mesmo os ciclos da natureza relacionados com o Abacateiro podem simbolicamente nos revelar lições, experiências, alertas, desde que observemos com carinho e atenção as dinâmicas no meio ambiente. Em uma fotografia ficou registrada a imagem de um pássaro que se alimentava da polpa de um abacate ainda ligado à árvore-mãe, sinalizando que em algum momento a semente, essa força interior do fruto, se desprenderia e cairia no chão para germinar. Isso é como um ensinamento para nós: em um breve momento a natureza nos mostra que às vezes são outros que nos ajudam a revelar ao mundo a nossa força interior. De imediato, pode parecer aos nossos olhos que o pássaro somente destruía o fruto do Abacateiro, consumindo sua polpa, tal como às vezes imaginamos que agem algumas pessoas com as quais convivemos, quando supomos que elas só estejam nos prejudicando, nos consumindo, nos fazendo mal, mas ao observarmos o fato de outro modo percebemos que, com tal ação, o pássaro possibilitou a libertação do que era vital, daquilo que deveria posteriormente brotar, para depois crescer até se tornar outra vigorosa árvore. Tal ensinamento sintetiza uma dinâmica da vida: o fruto do Abacateiro depende da abelha para existir, o pássaro depende do fruto para existir, a semente depende do pássaro para existir como semente livre que brotará, a nova árvore depende da semente para existir e será essa árvore que ofertará a flor da qual depende a abelha para existir, ou seja, um ser depende de outro ser e todos os seres se ajudam. Assim, aprendemos que todo ser é essencial para a vida.

Referências:

– Camargo, João M. F. de. Manual de Apicultura. São Paulo: Ed. Agronômica Ceres, 1972, p. 190.

– Claudino, Hilton. Frutas e seus Benefícios para a Saúde e a Beleza. São Paulo: Paulinas, 2020, p. 45 a 53.

– Enciclopédia de Plantas e Flores. São Paulo: Abril Cultural, s/d, p. 193.

https://pt.wikipedia.org/wiki/Persea_americana

https://www.jardineiro.net/plantas/abacate-persea-americana.html

– Korbes, Irmão V. Cirilo. Plantas Medicinais. 48 ed. Francisco Beltrão: Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural, 1995, p. 63.

– Lorenzi, Harri. Árvores Brasileiras – volume 1. Nova Odessa: Plantarum, 1998.

– Messmar, Dania Kemel. Avaliação da atividade anti-inflamatória dos extratos das sementes de Persea americana (Mill.) Lauraceae. Curitiba: Acervo Digital da UFPR, 2013.

– Murayama, Shizuto. Fruticultura. 2. Ed. Campinas: Instituto Campineiro de Ensino Agrícola, 1973, p. 152 a 234.

– Soares, Nilberto Bernardo et alii. Tolerância a Baixas Temperaturas de Cultivares de Abacate. Jaboticabal: Revista Brasileira de Frutic., 2002, p. 721 a 723.

– Vieira, Márcio Infante. Criar Abelhas é Lucro Certo. São Paulo: Nobel, 1984.