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Panorama rápido da apicultura em Mato Grosso do Sul.

Adevanil A. Ribeiro Filho: associado APACAME

Vamos começar com o informe da produção de mel no estado em 2020, que de acordo com o IBGE foram pouco mais de 984 toneladas, só para comparar com um dos “vizinhos” segundo a mesma fonte, o estado de São Paulo produziu no mesmo período mais de 4.448 toneladas de mel.

Mas comparações costumeiramente são falhas ou passíveis de necessidade de observação de muitos parâmetros para serem assertivas.

A apicultura no estado de Mato Grosso do Sul é ainda muito jovem, assim como o próprio estado, pois oficialmente se tornou independente de Mato Grosso em 11 de outubro de 1977, e completará 45 anos de existência este ano, mas com certeza já nasceu com forte vocação no agronegócio herdada do estado-irmão Mato Grosso, sendo os carros-chefes a pecuária, a soja e grãos de maneira geral.

A indústria tem aumentado significativamente sua atuação no estado

É fato que o estado de Mato Grosso do Sul é muito promissor em várias áreas importantes para nosso país, mas voltemos à apicultura.

As estiagens seguidas que o Brasil todo tem experimentado nos últimos anos, com grandes perdas na apicultura que viemos sentindo desde 2018 até agora, tem retraído a apicultura como um todo e no “MS” como é carinhosamente chamado o estado, infelizmente não foi diferente, aliás a sequência maléfica “veneno, clima extremo secas/enchentes e agressão ambiental” que se verifica em todo território brasileiro assolou “MS” também.

Atualmente o estado conta com aproximadamente 12 associações de apicultores, com grande potencial de aumentar estas associações num futuro breve e algumas cidades se destacam na produção de mel, tais como Três Lagoas, Brasilândia, Angélica, Dourados, Ribas do Rio Pardo e Jaraguari. Brasilândia recentemente conquistou a instalação de uma “casa do mel” muito bem equipada para seus associados e o eixo Ribas do Rio Pardo – Aguas Claras – Três Lagoas – Selvíria tem recebido um forte apoio das empresas de papel e celulose , principalmente o “Programa Colmeias” da empresa Suzano Papel e Celulose , aliás a ‘Suzano’ como é conhecida na região está realizando um mega investimento da ordem de US$ 2,7 bilhões na cidade de Ribas do Rio do Rio Pardo com a construção de uma planta de processamento de papel e celulose .

OS PROBLEMAS DA APICULTURA NA REGIÃO, PREDADORES

Existem, claro, problemas na região tais como predadores que além dos inimigos naturais tradicionais que não oferecem grandes problemas como os sapos, formigas, lagartos e pássaros e predadores que realmente dão muitos prejuízos como tatú canastra e a Irara que ainda existem em relativa “abundância” e que obriga o apicultor a se assegurar usando cavaletes com no mínimo 1,2 metros de altura para que o principalmente o tatú canastra não devore as colônias, logo implica em manejo bem mais trabalhoso devido à altura das colmeias.

Existem ainda os “bagunceiros” como relatam alguns apicultores – e até registram através de vídeos feitos por câmeras de espera montadas nos apiários – que são os macacos principalmente o macaco-prego, lobo guará, mão-pelada, quatis e gambás .Mas estes só fazem bagunça mesmo, derrubam alimentadores, levantam tampas das colmeias deixando as abelhas nervosas, etc.; efetivamente não dão prejuízos significativos.

Curiosamente o pior predador dos apicultores (o predador de mão leve e 2 pés…), é pouco ativo no estado, quase não havendo queixas de roubo de abelhas, mas na forma do extrativista ainda impera, pois não é raro pessoas irem “furar abelha” nas árvores e cupinzeiros destruindo as colônias alojadas na natureza e já existem queixas desses, pois a quantidade de mel extraída dessas estruturas estão cada vez menores.

Além dos predadores animais, há ainda um problema que no ano passado (2021) causou danos significativos; devido às boas chuvas no fim de outubro/2021 logo após o período de estiagem antecessor que foi uma florada excepcional de Barbatimão, a árvore já conhecida pelos efeitos perniciosos de seu pólen, este ano abusou da paciência dos apicultores Sul Mato-grossenses que registraram enormes perdas de colônias por envenenamento devido ao pólen de Barbatimão , já não bastasse a terrível estiagem que sufocou a tradicional florada do cipó-uva que é um recurso importante do estado, da produção reduzida de mel de seringueira e do eucalipto que teve baixíssima produção.

Este ano, muito provavelmente por reflexo da estiagem, pois as chuvas estão mais volumosas nesta estação, no já citado eixo de Três Lagoas e se estendendo até Aparecida do Taboado o eucalipto negou as suas flores e a produção deste tipo de mel não foi expressiva, contabilizando mais prejuízos para nós apicultores da região.

Estátua de Tatu-Canastra em Chapadão do Sul e apiário à beira de seringal em Três Lagoas

Estátua de Tatu-Canastra em Chapadão do Sul e apiário à beira de seringal em Três Lagoas

EXPECTATIVAS

É importante lembrar que o estado é muito rico em pasto apícola, plantas como cipó-uva, cipó-cravo, cipó são João, canela de ema, canelinha de perdiz, alecrim do campo, assa-peixe entre tantas outras que ainda abundam em todo o estado , assim como as áreas de biomas mais específicos como o pantanal , com sua vegetação tão característica – e só pra citar, o delicioso mel de cambará do pantanal que é simplesmente divino – só para falar dos méis de origem silvestre, para citar os méis de monocultura, as grandes propriedades rurais usam como adubação verde nas entressafras o nabo forrageiro e a crotalária, o nabo forrageiro tem um mel de sabor bem característico e forte, e é muito rico em pólen, ambas plantas são muito boas para o pasto apícola de manutenção , proporcionado colmeias fortes em pólen e mél até a chegada das floradas de produção evitando custos em alimentação energética , não raro o apicultor sul mato-grossense nem sequer precisa alimentar suas abelhas com alimento energético (xaropes) sendo necessário apenas cuidar da alimentação proteica (massa de abelha, bife de abelha, pólen artificial, como o leitor preferir).

Há uma monocultura de grande potencial que curiosamente pode ser qualificada como “silvestre” que é a seringueira – Hevea Brasiliensis- pois embora seja hoje cultivada em sistema de monocultura é natural do Brasil e tem mel de sabor suave.

PONTOS A SEREM TRABALHADOS

Há uma grande necessidade de melhoramento/treinamento da mão de obra e uma maior especialização dos apicultores da região.

O Senar- Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, entidade vinculada ao Sistema “S” que é um sistema de aprendizado descentralizado por setores e compostos por entidades-irmãs como o Senai, Sesc, Sesi, Senac, etc., tem tido muitas atividades juntos aos apicultores oferecendo cursos de apicultura e de especialização em apicultura, mas é difícil encontrar instrutores em apicultura para atender a crescente demanda de aprendizagem.

Falta mais integração entre os órgãos governamentais como o IAGRO – Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal para, junto com entidades como associações apícolas e Senar, poder agilizar e viabilizar a inclusão dos apicultores de maneira mais formal , facilitando os registros de apiários para incentivar os apicultores a serem mais formais , mas esta não é uma característica endêmica de Mato Grosso do Sul , pois outros estados através de seus órgãos correlatos e similares ao IAGRO sofrem com o mesmo problema, despertando um certo afastamento de pequenos apicultores que permanecem na informalidade.

UM GRANDE POTENCIAL

Nos últimos anos rondando as casas próximas à decima posição do ranking nacional de produção de mel, O estado de Mato Grosso do Sul é detentor de grande potencial apícola e tem condições ambientais para ser um dos maiores produtores de produtos apícolas do país, sendo um estado a ser melhor explorado no sentido de produção e expansão técnica da apicultura, além de ser um ótimo lugar para se viver com qualidade de vida.

FONTES:

https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ms/pesquisa/18/16574

http://www.ms.gov.br/apicultura-em-ms-e-reconhecida-por-qualidade-e-caminha-para-producao-organica/