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20 DE MAIO, DIA MUNDIAL DAS ABELHAS: IMPORTÂNCIA E PERSPECTIVAS

Lionel Segui Gonçalves – Prof. aposentado da USP-(FFCLRP)

Vinte de maio, Dia Mundial das Abelhas. A data foi sugerida pela Eslovênia, país do leste europeu, para celebrar as abelhas – os mais importantes insetos polinizadores do mundo.Foto_Abertura_Dia-Mundial

Por iniciativa coletiva de criadores de abelhas do país, a Eslovênia propôs à Organização das Nações Unidas (ONU) que a data de aniversário do mais famoso apicultor esloveno, Anton Jansa, fosse proclamada como o Dia Mundial das Abelhas.

Em 20/12/2017, os Estados-membros da ONU aprovaram, por unanimidade, a proposta que se tornou uma celebração mundial. Na sequência, escolheu-se o dia 22 de maio como o “Dia do Apicultor” com o objetivo de homenagear aqueles que as criam e defendem.

O tributo às abelhas tem fundamentação sócio-histórica e científica. Homens e abelhas convivem desde tempos imemoriais. Registros rupestres destacam a atividade de coleta de mel nas paredes de cavernas que serviram de abrigo ao homem pré-histórico. Modernamente, sabe-se que milhares de espécies diferentes de abelhas estão presentes nas paisagens silvestres de todo o globo terrestre e, também, nas paisagens agrícolas, contribuindo para a sustentabilidade de ecossistemas naturais e para o incremento na qualidade e quantidade das produções de grãos e frutos, em favor da segurança alimentar do homem contemporâneo.

A celebração da importância das abelhas deve-se, portanto, ao serviço ecossistêmico de polinização que elas realizam – produto das abelhas que começa a ser tangibilizado pelo mercado mundial. Para além do mel, da cera, da geleia real, da própolis e da apitoxina – produtos de há muito conhecidos e processados pelas indústrias alimentícias, farmacêuticas e cosmecêuticas -, as abelhas passam a ser ainda mais valorizadas pelo trabalho de polinização que garante a produção de boa parte dos alimentos, (sementes, castanhas frutos) que chegam à nossa mesa.

Inúmeros trabalhos científicos buscam, atualmente, identificar e mensurar o valioso consórcio entre diferentes espécies de abelhas e plantas completas (angiospermas). Atraídas pela riqueza floral, as abelhas coletam nessas plantas os recursos de que necessitam (pólen, néctar, resinas, perfumes) para sustentar a vida na colônia e nesse infinito vai-e-vem de flor e flor, transferem os grãos de pólen da parte masculina para a parte feminina das plantas garantindo-lhes a reprodução.

Considere-se, como curiosidade, que para uma abelha operária de Apis mellifera produzir um quilo de mel, ela precisa visitar cerca de 4 milhões de flores e voar distância equivalente a quatro vezes o diâmetro de nosso planeta. Nesse incomensurável trabalho de sustento da própria vida, elas sustentam muitas outras vidas que se interrelacionam em sofisticadas cadeias e teias alimentares.

Em síntese apertada, há que se considerar a presença de abelhas como bioindicador da saúde do meio ambiente. Sem abelhas, haveria prejuízo para a sustentabilidade de diferentes ecossistemas. Importante parcela de alimentos que sustentam a biodiversidade silvestre (aves, pássaros, mamíferos, répteis…) ficaria comprometida; e, sem a reprodução das plantas, pode-se, no limite, conjeturar prejuízo na produção de oxigênio – condição necessária à vida terrena.

Face a argumentos tão relevantes em favor da manutenção da vida é que se celebra, em 20 de maio, a data festiva para a Apicultura Mundial, lembrada pela mídia escrita, falada, televisiva e, também, nas redes sociais, que repercutem inúmeras reportagens enfatizando seu importante papel na natureza.

Dentre os eventos no Brasil, destacamos a comemoração realizada na Universidade Federal do Semiárido (UFERSA), em Mossoró-RN. O recém-inaugurado Núcleo de Capacitação Tecnológica em Apicultura (NCTA) que sucedeu ao Centro Tecnológico de Apicultura e Meliponicultura do Rio Grande do Norte-CETAPIS (Figuras 1 a 4), instalado na Fazenda Experimental dessa universidade passou a contar, por iniciativa da Profa. Dra. Katia Peres Gramacho, com o “Meliponário Paulo Menezes” (Figuras 5 e 6) . O meliponário experimental é uma homenagem póstuma ao importante meliponicultor potiguar que, durante mais de 40 anos, se dedicou às abelhas Jandaíra (Melipona subnitida), chegando a manter cerca de 700 colônias dessa espécie considerada responsável por mais de 50% da polinização de plantas nativas da Caatinga, como a jurema preta, o marmeleiro e o pau-ferro.

O segundo evento a ser destacado é a ação “Abelha Gigante”, realizada em Ribeirão Preto-SP pela organização “Bee Or Not To Be”, com o apoio da agência 6P. Uma aeronave modelo Air Tractor 402B ( Figuras 7 a 9 )- a mesma usada na aplicação de defensivos agrícolas -, foi especialmente adesivada de preto e amarelo e sobrevoou os municípios paulistas de Ribeirão Preto, Sertãozinho, Dumont e zonas rurais, na manhã do dia 20/5, caracterizada como uma abelha para lembrar a importância da presença de abelhas em áreas agrícolas.

A ação reacendeu o debate acerca da proteção às abelhas, colocando na pauta das discussões a questão da necessidade de maior controle, cuidado e responsabilidade na aplicação de defensivos agrícolas. O alerta foi dado a produtores agrícolas e pilotos de aeronaves semelhantes e à sociedade em geral, no sentido de se preservarem áreas de proteção ambiental, cursos e nascentes de águas e outras áreas eventualmente impactadas pelas “derivas” – desvio pelo vento dos produtos químicos dos alvos a serem atingidos no combate às pragas agrícolas. A ONG insiste no trabalho de conscientização e educação ambiental e a aeronave adesivada, “ABELHÃO”, como foi carinhosamente chamado pela imprensa local, também teve a oportunidade de demonstrar a importância do uso dessas aeronaves como dispersores de sementes em áreas degradadas, ou no controle de incêndios, em períodos de estiagem, na região. O evento com a aeronave lembrando uma abelha teve a presença de várias pessoas no aeródromo Santa Lidia em Ribeirão Preto-SP, como produtores de mel, ativistas, professores, imprensa, autoridades, representantes de empresas agrícolas, convidados especiais, representantes da Ong Bee Or Not To Be, da Agência 6P Comunicação e Coordenadores da Ação, Daniel Malusá Gonçalves, Karin Gonçalves Rossi, Silvia Machado, Júnior Botrel e do piloto José Paulo Garcia.

O terceiro evento a ser lembrado e comemorado são os “Jardins de Mel “. A iniciativa corresponde à instalação de colmeias para abelhas-sem-ferrão em parques públicos no Estado do Paraná, por meio do Projeto “Poliniza Paraná”, lançado pela SEDEST (Secretaria do Desenvolvimento Sustentável e do Turismo). Essa Secretaria está instalando três ou quatro colmeias em parques urbanos de 398 municípios do Paraná. O Projeto aumenta a presença de abelhas na natureza e promove o conhecimento das abelhas sociais nativas pelas comunidades locais. Os Jardins de Mel já são realidade em parques urbanos de Curitiba-PR e municípios vizinhos e podem servir de inspiração para muitas outras cidades no Brasil. Naquela região, as espécies de abelhas presentes são a guaraipo (Melipona bicolor), a mirim (Plebeia sp), a Jataí (Tetragonisca angustula), a manduri (Melipona marginata) e a mandaçaia (Melipona quadrifasciata). que podem ser visitadas pelo público no Museu de História Natural de Capão da Imbuia, no Zoológico de Curitiba, no Passeio Público, no Jardim Botânico, no Parque Barigui entre outros. Nos Jardins de Mel também são plantadas várias espécies de plantas poliníferas e nectaríferas. A SEDEST fornece as colmeias e as prefeituras locais cuidam da área e da manutenção das colônias de abelhas.

Os projetos aqui mencionados, bem como outros divulgados em diferentes mídias e o elevado número de cursos de apicultura e meliponicultura, em várias regiões, constituem evidência da franca expansão da Apicultura e Meliponicultura no Brasil. Nos dias 30/6 e 01 e 02/7/2022, realizam-se na Universidade Comunitária da Região de Chapecó-SC (UNOCHAPECÓ): o 2º COSBRAPIM – Congresso Sul Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura; o 2º. Simpósio dos Produtos das Colmeias e o 35º ECAM-Encontro Catarinense de Apicultores e Meliponicultores.

Em celebração ao Dia Mundial das Abelhas, não faltaram lembranças, homenagens, lançamentos de produtos, cursos demonstrações, publicações e muito mais há de ser feito para despertar o interesse da sociedade, compartilhar conhecimento, promover o debate e ações efetivas em favor da proteção das abelhas, os mais importantes polinizadores do planeta. (LSG, 20/5/2022).