Apiterapia


As propriedades antidiabéticas dos meles de abelhas com e sem ferrão

Dr.Mikhael Marques – Médico, palestrante e escritor, Professor da Pós-Graduação de Fitoterapia e Plantas Medicinais da EEP HC FM USP (escola de educação permanente – hospital das clínicas – faculdade de medicina da universidade de São Paulo) – Diretor do departamento de apiterapia do CNAA (Conselho Nacional do Agronegócio das Abelhas) – Formação em Medicina Antroposófica (Brasil e Alemanha) e Apiterapia (Brasil e Alemanha) – Pós-graduação em Nutrologia – Professor do LAPACIS/ FCM/ UNICAMP ( Laboratório de Práticas Alternativas, Complementares e Integrativas em Saúde/ Departamento de Saúde Coletiva – Faculdade de Ciências Médicas/ Universidade Estadual de Campias).

Palavras chaves: mel, abelha com ferrão, abelha sem ferrão, efeito antidiabético, diabetes, propriedades terapêuticas, açúcar.

Figura_PropriedadesO mel é um alimento nutricional complexo, composto principalmente por carboidratos (60-85%) e água (12-23%). Contém outros compostos como ácidos orgânicos, minerais, vitaminas, enzimas, proteínas, aminoácidos, e outras substâncias bioativas (flavonoides e fenóis, por exemplo).

A ciência sempre buscou averiguar os efeitos terapêuticos do mel. Os estudos mostram que o mel é capaz de auxiliar o tratamento de diabetes, podendo ser um aliado na terapia.

Diversos estudos mostram que o mel é capaz de reduzir os níveis de glicose em modelos experimentais e a frutose, encontrada no mel, é considera um potente agente antidiabético.

A mistura balanceada de frutose e glicose no mel possui um papel na atividade antidiabética. Atuam em sinergismo, promovendo o metabolismo da glicose no fígado. Os mecanismos envolvidos podem incluir redução da absorção intestinal, prolongamento do tempo de esvaziamento do estômago e redução da ingestão de alimentos.

A frutose também estimula uma enzima nas células do fígado, que têm um papel importante no estoque de glicose que , por outro lado, aumenta a absorção de frutose e atua no fígado.

Os estudos revelam o efeito hipoglicêmico do mel. Mas o mecanismo pelo qual isso acontece, ainda é desconhecido. A frutose, íons minerais (selênio, zinco, cobre e vanádio), ácidos fenólicos, e flavonoides possuem um papel importante nesse processo.

Evidências científicas mostram que componentes do mel, como quercetina, luteolina e kaempferol podem estar relacionados com as propriedades antidiabéticas, devido ao controle dos níveis de glicose no sangue.

Apesar de ambos os meles das abelhas com e sem ferrão terem propriedades antidiabéticas, existem algumas diferenças entre eles.

Mel de abelhas sem ferrão

As abelhas sem ferrão (Meliponini) são encontradas no Brasil, em outros países das Américas, Ásia e Austrália, são bem adaptadas aos climas tropicais. O mel dessas abelhas possui uma longa história por trás dos tratamentos indígenas e possuem várias propriedades terapêuticas, incluindo efeito antidiabético.

Um estudo comparou as propriedades antidiabéticas dos meles de abelhas com e sem ferrão. Neste estudo, analisou-se duas enzimas capazes de elevar os níveis de glicose no sangue (a-amilase e a-glucosamida). Os autores verificaram a capacidade dos meles de inibir essas enzimas, e perceberam que o mel das abelhas sem ferrão tem maior potencial inibitório. O que confere um maior potencial antidiabético. Esses achados foram verificados em ensaios em modelos experimentais in vivo, além de melhorar o perfil de colesterol e triglicerídeos.

Em 2020, uma pesquisa conduzida na Universidade de Queensland revelou a presença de um açúcar diferente presente no mel de abelhas sem ferrão. O estudo mostrou que 85% do açúcar presente nesse mel é a trealulose. Esse estudo analisou o mel das abelhas encontradas no Brasil, Austrália e Malásia. Achado bem interessante e ao evidenciar um outro açúcar que é capaz de também auxiliar no controle dos níveis de glicose. A trealulose é um açúcar raro, não sendo encontrado na maioria dos alimentos. Interessantemente, a trealulose é acariogênico, isso significa que não causa carie nos dentes.

Estudos realizados em laboratório mostraram que a administração deste mel previne o aumento dos níveis de glicose no sangue. Previne também o aumento de colesterol, triglicerídeos e lipoproteínas de baixa densidade.

Já se sabe que a trealulose atua no intestino e tem aplicações no controle dos níveis de açúcar no sangue de pacientes diabéticos, diminui a intolerância a glicose e previne a obesidade. Ela ajuda a prevenir e diminuir a formação de placas de gordura nos vasos sanguíneos (placas ateroscleróticas).

Mel de abelhas com ferrão.

As abelhas com ferrão (Apis mellifera) são as mais conhecidas produtoras de mel. A palavra “mellifera” significa “carregar mel”. Elas são naturais da Europa e África, mas foram introduzidas em outras regiões como Continente Americano e Oceania no período de colonização.

Assim como as abelhas sem ferrão, o mel produzido por elas é rico em substâncias e compostos com propriedades farmacológicas e terapêuticas. Entre as quais podemos destacar, o perfil antidiabético.

Os efeitos terapêuticos relacionados a controle dos níveis de glicose, diferem entre as espécies. Estudos mostram que o mel das abelhas nigerianas é capaz de reduzir a hiperglicemia, triglicerídeos, lipoproteínas de baixa densidade, colesterol e risco cardiovascular.

A Apis mellifera é capaz de inibir as enzimas a-amilase e a-glucosamida, mas em menor potência que as abelhas sem ferrão.

Também é possível verificar redução dos níveis de lipídeos em estudos que avaliam ação antidiabética do mel.

Os estudos científicos mostram que os meles das abelhas com ferrão são benéficos e além da sua atividade antioxidante, é capaz de controlar os níveis de glicemia após as refeições, normalizando-os.

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O mel de ambas as abelhas (com e sem ferrão) possuem propriedades antidiabéticas, podendo auxiliar o tratamento de diabetes tipo 2, e existem outros estudos que mostram beneficio no diabetes tipo 1 também!

Existem algumas diferenças de composição, e mecanismos pelos quais ocorre o controle dos níveis glicêmicos entre os meles. Uma pesquisa recente evidenciou que o mel de abelhas sem ferrão apresenta um açúcar que pode auxiliar no controle da diabetes.

Entretanto, mais estudos são necessários para investigar os compostos envolvidos nesse processo e a forma pela qual ocorre.

Apesar dessas pequenas diferenças, ambos os meles são benéficos. Poder usar um doce para tratar diabetes é algo que nenhum paciente imaginava.

Este texto tem como objetivo elucidar todos potenciais benefícios dos principais protudos das abelhas. Não visa substituir atendimento de profissionais da saúde, nem tratamentos que já estejam em andamento.

Referências:

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