Artigo


Variabilidade fenotípica
nas populações das abelhas nativas

Harold Brand, Biólogo, Meliponicultor, Consultor da APA – profharoldbrand@gmail.com

Introdução:

Meliponario Piraquara; situado a 1000 metros de altitude, sua localização é um ecoteno, transição da mata atlântica com a mata das araucárias.

Meliponario Piraquara; situado a 1000 metros de altitude, sua localização é um ecoteno, transição
da mata atlântica com a mata das araucárias.

A maioria das bibliografias de cada uma das nossas espécies de abelhas nativas nos transfere uma imagem muito uniforme e constante sobre as suas características particulares. Como os exemplos, da ornamentação da entrada, agressividade quando manipuladas, distribuição dos discos de cria, aspectos morfológicos das operarias e zangões, etc.

Entretanto, a realidade é bem outra, fato que ressalta aos nossos olhos, quando trabalhamos com muitas famílias da mesma espécie, particularmente quando procedem de regiões ecológicas distintas.

O aspecto positivo dessa variabilidade são as múltiplas possibilidades a serem manipuladas no seu melhoramento genético. A seleção dessas características mais úteis, visando o aproveitamento dessas abelhas, na agricultura como agentes de polinização, na medicina na produção de substancias terapêuticas, na indústria de cosméticos como geradoras de matéria prima para produtos de beleza etc.

As origens dessas diferenças fenotípicas são o resultado das pressões evolutivas diferenciadas. Explicáveis, uma vez que as populações da mesma espécie quando inseridas em regiões ecológicas diferentes acabam moldadas por características particulares fruto de suas adaptações.

Quadro 1Procedência das famílias estudadas.

As diferenças entre as abelhas da mesma espécie relatadas neste trabalho provem de observações de famílias oriundas de várias regiões brasileiras, mantidas e manipuladas por vários anos em meliponários de Curitiba (Xaxim) e Piraquara (Recreio da Serra).

As abelhas nativas em questão foram obtidas da seguinte forma:

1º Salvamento das abelhas nas matas antes do represamento de hidroelétrica e da formação de reservatório para abastecimento de água.

2º Permuta de colméias e discos de cria entre criadores de várias estados.

3º Compra de colméias e discos de oriundas de várias regiões.

4º Retirada de discos de cria das populações nativas (abertura em troncos e restauração com barro “técnica, índio guarani” ).

5º Recuperação de troncos em depósitos de serrarias e fornos secadores de folha de fumo (vide as notas).

Comparando esses materiais coletados e manipulados durante vários anos, foi possível anotar algumas diferenças, nas populações das abelhas nativas, da mesma espécie.

variabilidade fenotípica em mandaçaias.Quadro 2

As variabilidades dessas espécies, observadas e descritas são de populações de abelhas provenientes de 30 municípios desde o Rio Grande do Sul até o Espírito Santo.

As observações sobre as características foram feitas em colméias populosas e estabilizadas com mais de um ano de vida, portanto famílias em equilíbrio populacional.

As diferenças morfologicas

Característica morfológica do abdômen (padrão das bandas tergais). Baseados nesse polimorfismo podem como sugestão dividir as Mandaçaias em cinco grupos raciais.

Quadriquadri – a menor delas de cor preto-acinzentada – tradicional da região Sul.

Antidioides – listas tergais com interrupção nítidas. Geralmente mais populosas e um pouco mais incorpadas.

Hibridas – resultado do cruzamento entre quadriquadri e antidioides, listas tergais parcialmente interrompidas.

Yellow – listas tergais bem largas que dão aspecto muito amarelado às abelhas. As famílias muito populosas e boas produtoras de mel.

Giga – abdômen maior e muito brilhante, que lhe dá o aspecto avantajado em relação às outras Mandaçaias.

Nota 1Diferenças na ornamentação de entrada da colméia

Sem nenhuma ornamentação – apenas orifício de entrada, quanto muito lambuzado devido ao material excretado do interior da colméia foto A.

Toda a frente da caixa pontilhada por pequenos montículos de barro ou mesmo de fezes de animais foto B.

Pequeno relevo de geoprópolis ao redor do orifício de entrada lembrando um pequeno cone sem o vértice.

Tubo prolongado que pode chegar a 15 cm de comprimento

Agressividade quando manejada podem ser:

A – Muito dócil nenhuma reação de defesa, procuram se esconder no ninho.

B – Muita agressivas, perseguindo as pessoas próximas a colméia.

Produção de geoprópolis.

Muito embora a produção de geoprópolis tenha influência ambiental ela pode ser creditada a uma herança quantitativa ( multifatorial ).

Mandaçaia que mistura própolis ao barro, nosso conhecido geoprópolis.

Mandaçaias que produzem apenas a própolis (não misturam com barro). Fator importante para os meliponicultores que desejam produzir própolis para fins medicinais. A mandaçaia chega a produzir cinco vezes mais própolis que abelha domestica (Apis melífera).

Mandaçaias que praticamente não produzem própolis. O revestimento interno é feito de com muita cera.

NOTA: Ver trabalho publicado pela ACTA Biológica da UFPR.

Tamanho dos potesQuadro 3

O tamanho dos potes, quantidade de mel, tamanho das populações são características genéticos condicionados por fatores polímeros muito influenciados por condições ambientais, mas que são dados relevantes na seleção para o melhoramento da espécie.

Disposição dos discos

Nota 2A disposição dos discos de cria. As duas formas da distribuição podem ser verificadas, discos sobrepostos e discos em espiral. As famílias filhas sequem essa tendência, indicativo de base genética.

variações fenotípicas

A vivência com as nossas abelhas nos tem revelado que variações fenotípicas são mais numerosas quando uma mesma espécie pode ser encontrada em varios biomas, fato explicável uma vez que a pressão seletiva atua de modo diferente.

O modo peculiar da enxameação em que os exames filhos se fixam nas proximidades do enxame mãe formando no meio ambiente verdadeiras manchas familiares cuja expansão é lenta no espaço tempo, constituindo uma forma de isolamento geografico.

Conclusão

As guaraipo, conhecidas como pacificas, porem essa família em particular contradiz a tradição ao atacar o meliponicultor.

As guaraipo, conhecidas como pacificas, porem essa família em particular contradiz a tradição
ao atacar o meliponicultor.

É notável a variabilidade nas populações das nossas abelhas nativas quando comparamos os indivíduos da mesma espécie inserida em sistemas ecológicos diferentes. Estas diferenças não se restringem apenas aos aspectos morfológicos, mas também aos aspectos comportamentais e até mesmo no manejo das secreções vegetais extraídas pelas abelhas no seu pasto floral.

Nesse aspecto a Genética vem ao nosso socorro, ela nos faz lembrar que os clines e ecótipos são reflexos da adaptação ao ambiente físico.

E aqui fica o alerta aos cuidados que devemos ter com os trabalhos de pesquisa com as nossas abelhas baseados em amostragem pequena, as conclusões resultantes nem sempre refletem a realidade.