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A CRONICA DA MORTE ANUNCIADA

Texto: Carlos Pamplona Rehder – Presidente da Câmara Setorial do Mel do Estado de São Paulo.

A Cadeia de Mel e Própolis está se organizando. A Federação de Apicultura do Estado de São Paulo está propondo uma reunião para a criação de um plano estratégico e de governança. Precisa haver cooperação entre apicultores e entrepostos. Mas até hoje eles se vêm como inimigos. Quando justamente deveria ser o contrário. Um setor não sobrevive sem o outro. O apicultor não consegue atender o mercado e o entreposto precisa de produto para vender.

Por que é tão importante fazer uma estratégia do setor? Vamos verificar como a falta de estratégia conseguiu destruir mercados importantes do setor apícola brasileiro.

Primeira morte de um mercado 1997

Em meados dos anos 90, o mercado japonês descobriu Artepelin C, tornando a própolis brasileira em um produto premium e começou a comprar em grandes quantidades. Inclusive pagou valores adiantados para a construção de cooperativas e fábricas no Brasil, que depois foram pagas com a exportação da própolis verde bruta. Só que o mercado estava muito aquecido e ao invés de se fazer uma ação para fomentar o aumento da produção e o brasileiro produzir o dobro e ganhar o dobro com dois quilos, resolveram inflacionar a matéria prima e ganhar mais com o mesmo quilo. Como o mercado não aceita desaforos, foi criada uma associação de importadores de própolis no Japão e eles pararam de comprar por alguns meses a própolis do Brasil. A própolis estava custando em 1995-1996 cerca de R$ 160 reais por kg no campo, caiu para R$ 30 reais o quilo.

Perda de mercado de própolis mercado Japão 1994-1995

Segunda morte de um mercado 2003

Depois da perda do mercado de própolis, o setor continuou a trabalhar, vendendo principalmente mel e própolis nas farmácias (que era uma novidade) e mel para os entrepostos para a produção de iogurtes. Nesta época os iogurtes “com mel” eram adoçados exclusivamente com mel e não podiam ter glicose ou açúcar no produto. Inclusive existiam importações de mel Uruguai para suprir o mercado, pois a produção brasileira não era suficiente.

Em 2002-2003, a China foi proibida de exportar para a Europa por terem sido encontrados produtos antibióticos e contaminantes no mel. E por outro lado, os Estados Unidos criaram uma taxa anti-duping (quando o preço vendido é mais baixo que o custo de produção) de 300% à vista na alfandega. Com isso, o mel chinês que era exportado com grande quantidade (cerca de 100 mil toneladas) ficou retido na china. Os alemães, grandes importadores e grandes re-exportadores, ficaram desesperados e desenvolveram novos fornecedores. Nesta época, o Brasil não exportava mel, e os entrepostos não estavam preparados para exportar, mas, mesmo assim, se adequaram e começaram a exportar para suprir os importadores alemães. Com a alta na demanda e uma desvalorização cambial, houve um repique de preços no campo, o mel que era comprado em São Paulo por R$ 2,50/kg e em outros lugares abaixo de R$2,00, pulou para R$ 10,00/kg. Isso fez com que a exportação deslocasse 50% do volume do mel produzido no Brasil para suprir as exportações.

Com a falta de matéria prima (Mel) e com preços 500% mais altos. E como o mercado não leva desaforo, o setor de iogurtes, bem preparado e organizado, não aceitou o aumento. Criou junto do Ministério da Agricultura uma legislação que possibilita que iogurtes com mel tenham um ingrediente chamado “preparado de mel” (água, xarope de açúcar, glicose, mel, amido, aromatizante). Isso possibilitou eles continuarem a escrever Iogurte Com Mel
e os ajudou a manter os custos de produção.

Terceira morte de um mercado 2006

Com o mercado de exportação a granel de mel crescendo, os entrepostos construíram novas sedes aptas a exportar volumes maiores a granel. Estes exportavam 50% do mel produzido pelos apicultores Brasil em containers com 50 ou 70 tambores de 285kg cada.

Mas com o embargo europeu ao mel chinês, a Europa criou novas regras para controle de resíduos para a importação de produtos agrícolas para a Europa. Cada país exportador deveria criar oficialmente um plano nacional de controle de resíduos. Isso deveria ser implantado por todos os fornecedores.

Só que, em meados de 2006, os importadores alemães avisaram seus exportadores brasileiros que o mel proveniente do Brasil seria embargado por falta de um plano nacional de controle de resíduos criado e controlado pelo governo brasileiro.

Mesmo sendo todo lote exportado do Brasil para a Europa analisado por laboratório europeu (a pedido dos importadores), o governo europeu queria um controle governamental e para todos os produtos agrícolas. E o mel Brasileiro foi embargado. O mercado não aceita desaforo. Por dois meses, as exportações de mel do Brasil para a Europa cessaram. Caíram a zero. E depois disso, o mel começou a fluir para os Estados Unidos, com o valor exportado na casa de 50% mais barato do que era exportado para a Europa. Próximo dos USD 1700/tonelada

Quarta morte de um mercado 2016

O mel Brasileiro, sempre bem cotado, por ser de abelhas africanizadas, mais resistentes a doenças, mais defensivas, requerem que sejam alocadas a 1km de qualquer outra habitação ou animal, bem distante de tudo, no meio do mato. E por termos uma mata nativa em torno de 66% do nosso território nacional, conforme dados da Embrapa, temos vasta área para a produção de mel orgânico.

Em 2010-2012, o mercado de mel a granel orgânico começou a crescer para os Estados Unidos. E os preços que eram relativamente baixos, começou a ganhar um premium. Chegamos exportar em 2016 cerca de 95% de todo o mel orgânico que os Estados Unidos importavam. E os Estados Unidos importam muito. São os maiores importadores de mel orgânico do mundo. Isso fez com que o mercado de mel se aquecesse e por falta aumento de produção, os preços subiram, muito. O mel era comprado do apicultor por cerca de R$ 5,96/kg em 2011, subiu para R$ 7,11/kg em 2012, R$ 7,44/kg em 2013, R$ 8,22/kg em 2014, R$ 9,49/kg em 2015, R$ 11,88/kg em 2016 e mais de R$ 14,00/kg em 2017.

Como o mercado não toma desaforo, o mercado interno que representava 50% do mel produzido no Brasil, encareceu. O consumidor começou a encontrar mel na gondola por R$50/kg até R$77/kg. E com isso uma grande camada da população que consome mel é de baixa renda, parou de comprar mel. Matamos o mercado nacional de mel.

Quinta morte de um mercado 2017-2018

Com o preço do mel chegando a mais de R$14 reais por kg, o apicultor ao invés de aumentar grandemente sua produção, se manteve ao redor de 40 mil toneladas. O mel que era exportado em meados de 2012 a USD $ 3,13/kg ou aproximadamente R$ 6,20/kg. Com a exportação de mel orgânico, com o investimento dos entrepostos em fazer seus projetos de orgânico, certificando os apicultores para poder exportar, o preço subiu para maio de 2016, chegando a USD 3,54/kg (R$ 12,45/kg). Mas mesmo assim, o preço não incentivava o crescimento exponencial da produção. O preço da exportação chegou a USD 4,775/kg ou R$ 15,75/kg.

O mercado não aceita desaforo. Os americanos desenvolveram mais um fornecedor de mel orgânico para não ficar na mão do produto brasileiro. Sendo assim, a Índia certificou suas colmeias para mel orgânico e começou a vender mel orgânico para os Estados Unidos por USD 2,00/kg. E o Brasil teve que reduzir seu preço para poder continuar vendendo mel orgânico a granel no mercado americano.

Sexta morte de um mercado 2020 (COVID)

Parece que o Brasileiro não aprende. Temos sempre que ganhar tudo, no dia, nunca podemos ganhar o dobro, produzindo o dobro. O brasileiro só quer saber de aumentar o preço.

Com a pandemia de corona, a própolis caiu nas graças dos Brasileiros. Um mercado maduro, toda farmácia no Brasil tem hoje um pote de extrato de própolis e um spray de mel e própolis. Isso é inquestionável. Mas com a covid, temos registros que as vendas aumentaram em 800%. Mas como a própolis é produzida entre os meses de novembro a abril, somente restando raspas em maio e junho, a produção no campo já estava se acabando no início da covid.

Com isso começou-se a uma grande especulação e os preços que eram de R$ 100 a 150/kg reais para a própolis verde chegam a R$ 600/kg. Com o incremento de custo da matéria prima, o inevitável vai acontecer. Um produto que custa em torno de R$ 10 a 20 reais na gondola da farmácia, com 30mL de conteúdo liquido, vai passar a custar mais de R$50. E o velho e bom mercado, não leva desaforo para casa. O consumidor não mais comprará a própolis e mais uma vez, perderemos um mercado.

Até quando o Brasileiro vai se organizar em uma cadeia, estruturar, produzir, industrializar, vender e ser profissional? Quando o brasileiro vai ganhar o dobro, mas produzindo o dobro e não cobrando o preço dobrado? Quando que o brasileiro vai parar de especular e querer passar todos para trás?

Está na hora do mercado do mel e da própolis amadurecer e se profissionalizar, tanto na indústria quanto no campo!

Graças a Deus!