Artigo


Emprego de abelhas campeiras de Mandaçaia (Melipona quadrifasciata anthidioides) na multiplicação de colônias de Uruçu Amarela (Melipona rufiventris): observação e perspectiva.

Autor: Helton Barbosa – Contribuíram com o artigo: Antônio Felipe Guimarães Leite e Jefferson Barros de Oliveira

Figura 1. Abelhas operárias de Mandaçaia em disco de Melipona rufiventris.

Figura 1. Abelhas operárias de Mandaçaia em
disco de Melipona rufiventris.

O Brasil possui uma grande variedade de abelhas-nativas-sem-ferrão, meliponíneos, que se destacam tanto pela produção de mel, com sabor diferenciado e de alto valor agregado, em relação ao mel da abelha Apis melífera, quanto pelo papel que esses insetos desempenham na polinização de plantas nativas. Venturieri et al. (2015) destacaram que em razão da diversidade de formas, tamanhos e ecologia, várias espécies de meliponíneos têm demonstrado potencial de uso na polinização de plantas cultivadas (Venturieri et al; 2015).

A abelha Uruçu Amarela do Planalto (Melipona rufiventris Lepeletier, 1836) apresenta ocorrência na região do cerrado brasileiro, tendo sido apontada sua distribuição nos estados de Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Bahia (oeste baiano), Tocantins e Piauí (Catalogo Moure).

Segundo Campos (1998), as populações de abelha Melipona rufiventris estão sendo, drasticamente, reduzidas e apontou como possíveis causas dessa redução: o desmatamento, a ação predatória de meleiros e a ocorrência de queimadas. Oliveira e Kerr (2000) afirmaram que para salvar as meliponas ameaçadas é necessário que se conheça o seu processo reprodutivo.

Figura 2. Colônia nova de Melipona rufiventris.

Figura 2. Colônia nova de Melipona rufiventris.

Nesse sentido, considerando que há um número reduzido de colônias de Uruçu Amarela do Planalto e que há necessidade de desenvolvimento de técnicas de manejo para incremento da população dessa espécie, com vistas a sua conservação, foi proposto como alternativa de multiplicação de colônias de Melipona rufiventris, no modelo 2×1, o emprego de abelhas operárias da espécie Mandaçaia (Melipona quadrifasciata anthidioides).  

Essa proposta foi baseada nas observações feitas pelo meliponicultor Gildo Oliveira, do estado da Bahia, que adotou utilização de Melipona quadrifasciata anthidioides na multiplicação de colônias de Melipona mandacaia.

Material e Métodos

As divisões foram realizadas em um meliponário localizado na Cidade Ocidental, estado de Goiás. O método de multiplicação utilizado foi o 2×1, ou seja, uma colônia fornece as abelhas operárias e a outra fornece os discos de cria. Adotou-se o modelo de caixa proposto pelo Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia com dimensões 14cm x 14cm x 10cm (comprimento x largura x altura) e 2cm de espessura, fabricada com madeira de Pinnus sp.

Foram realizadas duas divisões, chamadas neste artigo como Divisão 1 e Divisão 2.

A Divisão 1 foi foi realizada no mês de outubro de 2017 e para isso utilizou-se cerca de 80 abelhas operárias de Manaçaia e um disco nascente de Uruçu Amarela do Planalto com, aproximadamente, 5 cm de diâmetro. Observou-se que, após 15 dias da divisão, já havia rainha de Uruçu Amarela do Planalto na colônia, bem como, realização de postura, tendo havido sucesso na divisão.

A Divisão 2 foi realizada no mês de dezembro de 2017 e utilizou-se, aproximadamente, o mesmo número de abelhas operárias de Mandaçaia. Entretanto, dessa vez, colocou-se na caixa de divisão dois discos nascentes de Melipona rufiventris, o maior deles medindo 56 x 80 mm, e o menor medindo 30 x 35 mm.

Dez dias após a realização da divisão (Divisão 2) foi realizada observação em que se verificou nascimento de algumas Uruçus Amarelas do Planalto. Verificou-se também que parte dos discos estavam podres, com larvas mortas. Esse fato pode ser explicado pela presença árvores de Neen Indiano (Azadirachta indica) nas proximidades do meliponário.

Entretanto, apesar de perda de parte de parte do material, constatou-se que, 42 dias após a divisão, houve aparecimento de rainha e presença de postura na colônia, constando 26 células de cria fechadas. Tal observação é relevante pelo fato de que, mesmo com pouco material a colônia se consolidou com as todas as castas básicas para sua manutenção e sustentabilidade (rainha, operária e zangões).

Relata-se que tanto a Divisão 1 quanto a Divisão 2 foram alimentadas de modo suplementar, com xarope de água e açúcar, na proporção de 1 parte de água para 1 parte de açúcar. O xarope foi fornecido duas vezes por semana na quantidade de 40 ml/colônia, aproximadamente.

Conclusões

Verificou-se, com base nas duas divisões realizadas, que há possibilidade de uso de operárias de Mandaçaia para a multiplicação de colônias de Uruçu Amarela do Planalto, pelo método 2×1. Tal verificação abre novas frentes de estudos para o manejo e multiplicação da abelha Melipona rufiventris e, por conseguinte, sua preservação.

Bibliografia

Campos, L.A.O; Melipona rufiventris Lepeletier, 1836. Em: Machado ABM, Fonseca GAB, Machado RB, Aguiar LMS e Lins LV (eds) Livro Vermelho das Espécies Ameaçadas de Extinção da Fauna de Minas Gerais. Belo Horizonte. 1998.

CATALOGO MOURE – disponível para pesquisa em http://moure.cria.org.br/catalogue

OLIVEIRA, F.; KERR, W. E.; Divisão de uma colônia de Jupará (Melipona compressipes manaosensis) usando-se a colmeia e o método de Fernando Oliveira. INPA. Manaus-AM. 2000.