Artigo


Atividade polinizadora de abelhas sem ferrão em área urbana de reflorestamento no Rio de Janeiro.

Ortrud Monika Barth1, Alex da Silva de Freitas1,2, Christiane dos Santos Rio Branco3

1 Instituto Oswaldo Cruz, Fiocruz, Avenida Brasil 4365, 21040-900 Rio de Janeiro, Brasil; barth@ioc.fiocruz.br
2 Universidade Federal Fluminense, Niterói, Rio de Janeiro, Brasil; alexsilfre@gmail.com
3 Projeto “Mutirão Reflorestamento” – Prefeitura do Rio de Janeiro; chrismelriobranco@gmail.com

Apresentação

Áreas devastadas em fase de reflorestamento podem, em parte, ter seu desenvolvimento acompanhado e avaliado pela intensidade da atividade de abelhas. Referem-se tanto à saúde das populações e suas crias, bem como à sua capacidade polinizadora. Neste sentido foram avaliadas três espécies de abelhas nativas sem ferrão, a iraí (Nannotrigona testaceicornes), a jataí (Tetragonisca angustula) e a mandaçaia (Melipona quadrifasciata anthidioides), implantadas numa área em fase de reflorestamento do Morro da Formiga, bairro da Tijuca, Rio de Janeiro, durante um ano e meio. A avaliação foi feita por meio da análise palinológica de amostras de mel e de pólen apícola/bolotas refletindo a problemática na revegetação de áreas degradadas.

Introdução

As atividades destruidoras do homem sobre a natureza levou diversas áreas urbanas a tal ponto que a qualidade de vida saudável da população caiu drasticamente. Isto se fez sentir principalmente no abastecimento de água potável e saneamento. Extensas áreas ao redor de áreas urbanas densamente construídas foram praticamente destituídas de vegetação levando inclusive à ocorrência de deslizamentos de terra e casas e de mortes. Amplos estudos de avaliação ambiental foram e estão sendo realizados em função destes problemas (Dean 1996).

A cidade do Rio de Janeiro abrange a maior área urbana de Mata Atlântica tropical (Santana et al. 2015). A agressão a este ecossistema é constante, principalmente no entrono de comunidades chamadas favelas (Lago & Ribeiro 2001). Estas áreas ficam localizadas em sua maioria sobre as encostas dos morros da cidade, espremidas entre os centros habitacionais “mais nobres”, a mata e os capinzais. Abrangem uma população altamente condensada, cuja pressão sobre o ambiente é extrema e constante. Para amenizar esta situação, bem como poder melhorar o controle sobre as águas e os deslizamentos, a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro lançou em 1987 um grande projeto, atualmente sob a denominação de “Mutirão Reflorestamento” (Moraes et al. 2006). Teve efeitos benéficos excelentes em diversas áreas desta megalópole.

Uma das táticas de proporcionar a implantação de vegetação arbórea e arbustiva nestas áreas degradadas foi a de introduzir as abelhas nativas, chamadas melíponas. Estas abelhas são responsáveis pela polinização de 40 a 90% das espécies arbóreas no Brasil (Kerr et al. 1996). Atuam como polinizadoras de espécies vegetais nativas, favorecendo o aumento de sementes e em posteriormente novas mudas.

A fim de rastrear as atividades, preferências e potencialidade destas abelhas, foram aplicadas técnicas de Palinologia. Através destas é possível obter o reconhecimento de plantas visitadas pelas abelhas por meio da morfologia dos respectivos grãos de pólen, os quais elas carregam para os seus ninhos como fonte de alimento ou, involuntariamente, por meio de contato.

O presente estudo pretende avaliar o potencial polinizador de abelhas nativas sem ferrão em uma área degradada em fase de reflorestamento na cidade do Rio de Janeiro, através da análise palinológica.

Material e Métodos.

Uma área restrita em processo de reflorestamento no Morro da Formiga, bairro da Tijuca, foi acompanhada por um ano e meio. A região fica adjacente a uma comunidade de baixa renda, denominada Morro da Formiga (Figura 1). Foto-01-Atividade-polinizadora

O plantio envolveu espécies vegetais dos estratos arbóreos, subarbóreo e arbustivo. Dentro da área reflorestada foi montado um pequeno apiário nas coordenadas 22°56’37.01″S e 43°14’31.67″W com abelhas nativas sem ferrão das espécies iraí (Nannotrigona testaceicornis), jataí (Tetragonisca angustula) e mandaçaia (Melipona quadrifasciata anthidioides). As caixas de abelhas foram inspecionadas mensalmente e amostras de mel e de pólen apícola (bolotas/cargas de pólen) coletadas.

A análise palinológica deste material seguiu o método laboratorial padrão europeu de preparo das amostras, sem o uso de acetólise (Louveaux et al. 1978). Amostras de mel foram diluídas em água com o dobro de seu volume, centrifugadas, impregnadas com água/glicerina 1:1 por meia hora, centrifugadas e o sedimento foi montado sobre lâminas de microscopia com gelatina glicerinada vedando-se com parafina (Barth 1989). A contagem e a identificação dos grãos de pólen abrangeu 300 ou mais grãos de pólen, distribuídos segundo as classes de frequência de Zander, considerando a sub- e super-representação de espécies florais e o corte de 45% para caracterizar uma amostra monofloral (Barth 1989).

As amostras de pólen apícola foram extraídas com etanol a 70% por uma ou duas vezes, centrifugadas, impregnadas com água/glicerina 1:1 por meia hora, centrifugadas e o sedimento foi montado diretamente sobre lâminas de microscopia vedando-se com esmalte de unha (Barth et al. 2010). A contagem e a identificação abrangeu 500 ou mais grãos de pólen. Considera-se uma amostra ser monofloral ocorrendo os grãos de pólen de um único táxon acima de 90% ou então acima de 60% caso não houver pólen acessório (15 a 45%) (Barth et al. 2010).

Foram registrados para ambas as preparações (mel e pólen apícola) outros elementos figurados que constavam do sedimento, os quais poderiam dar informações adicionais às atividades das abelhas. A identificação dos tipos polínicos observados nas amostras coletadas fez uso da coleção de referência do laboratório (material não acetolisado) e de catálogos de referência (Barth 1989, Roubik & Moreno 1991).

Resultados

Durante um ano e meio (2015/16) foram coletadas 20 amostras de mel sendo oito referentes à abelha iraí, nove à abelha jataí e três à abelha mandaçaia. No mesmo período foram coletadas 21 amostras de pólen apícola, sendo seis da abelha iraí, nove da jataí e seis da mandaçaia. Somente no mês de novembro de ambos os anos de coleta foram obtidas amostras simultâneas de mel e pólen apícola das três espécies de abelhas. Em alguns meses foi impossível realizar coletas por razões ambientais e populacionais.

Foto-02-Atividade-polinizadoraMel (Figuras 2 e 3)

Das 20 amostras de mel analisadas, somente seis eram monoflorais, isto é, apresentavam grãos de pólen de um único táxon acima de 45% denominado predominante. Enquadram-se nesta categoria as amostras coletadas pela abelha iraí nos meses de março de Gochnatia (cambará), da jataí em novembro do tipo Calycophyllum (pau mulato) e da mandaçaia de Anadenanthera colubrina (angico branco) em novembro e dezembro.

Ocorreram somente três amostras biflorais. Da abelha jataí uma amostra era caracterizada por pólen do tipo Apiaceae e Schizolobium parahyba, a outra por Rubiaceae e Arecaceae. A abelha mandaçaia produziu uma amostra de mel com maior contribuição de Myrcia e Piptadenia gonoacantha.

As demais 11 amostras coletadas eram totalmente atípicas, dominadas por pólen anemófilo e de fartos e diversos tipos de esporos de fungos. Não podem ser consideradas heteroflorais devido a uma mínima quantidade de néctar coletado.

Pólen (Figuras 2 e 3)

Das 21 amostras de pólen apícola analisadas, somente cinco eram monoflorais.

Enquadram-se nesta categoria as amostras coletadas pela abelha iraí no mês de novembro Struthanthus (parasita, erva de passarinho), pela jataí em novembro e janeiro de Syagrus romanzoffiana (palmeira, gerivá) e Trema micrantha (arvoreta, grandiuva). A abelha mandaçaia em novembro e dezembro coletou pólen de Myrcia (arvoreta, murta) e de Struthantus respectivamente.

Amostras biflorais eram as mais freqüentes. A abelha iraí coletou pólen em janeiro e fevereiro de Schinus terebinthifolius (aroeira) e de uma espécie não identificada, em junho e julho de Serjania (timbó) e Syagrus romanzoffiana. A abelha jataí apresentou coletas muito variadas, sendo de Alchornea triplinervia (caixeta, tanheiro) e de uma espécie desconhecida em novembro; de Cecropia (embaúba) e Trema micrantha em dezembro; Schizolobium (sibipiruna) e Trema micrantha em fevereiro; Poaceae e Cecropia em junho. As biflorais da abelha mandaçaia dataram de setembro, sendo de Mimosa caesalpiniifolia (sabiá) e Anadenanthera colubrina (angico branco), e de fevereiro de uma espécie desconhecida e Schinus terebinthifolius.

Três amostras eram heteroflorais coletadas nos meses de junho, julho e outubro. Como elementos figurados estranhos constantes nas amostras de pólen constavam, além de leveduras, esporos de fungos observados nas amostras coletadas pela abelha iraí (Figura 3)

Discussão

As 41 amostras analisadas e coletadas pelas três espécies de abelhas sem ferrão representaram atividades bastante variáveis entre si.

Mel

Das 20 amostras de mel coletadas, seis eram monoflorais, três biflorais e 11 atípicas. Nenhuma das seis amostras monoflorais produzidas pelas três espécies de abelhas nativas teve a mesma origem floral. Na época de verão a abelha iraí destacou-se pela visitação à florada do angico e na primavera pelo cambará, enquanto que a abelha mandaçaia deu preferência às murtas ao longo do ano. A abelha jataí não produziu mel monofloral. Os méis biflorais eram todos pobres em grãos de pólen, ricos em pólen anemófilo e esporos de fungos; assim, nem podem ser considerados como sendo de uma origem heterofloral. Três amostras de mel produzidos pela abelha iraí estavam inteiramente desprovidas de grãos de pólen, contendo leveduras e outros esporos em quantidade, deixando a origem do produto desconhecida.

Pólen

Das 21 amostras de pólen coletado, cinco eram monoflorais, dez biflorais e seis heteroflorais. As amostras monoflorais conseguiram ser obtidas somente na florada de primavera e início de verão. Igualmente as biflorais, mas também em junho e julho, meses de inverno. As heteroflorais ocorreram entre julho a dezembro

Espécies de plantas com polinização anemófila foram muito importantes para as abelhas jataí e mandaçaia, compreendendo as Poaceae, Cecropia, Trema e Piper (caapeba). Esta última espécie, arbustiva e freqüente em orla de matas úmidas, constituiu boa alternativa nos meses de outubro a dezembro, em épocas mais secas e com baixas floradas. As Melastomataceae (quaresmeiras), de anteras poricidas, não estavam representadas significativamente. Entre as plantas nectaríferas destacaram-se as palmeiras (Syagrus), aroeiras (Schinus), tamanqueira (Alchornea) e as ervas de passarinho (Struthanthus).

Mais recentemente, principalmente pelo incentivo dado à Meliponicultura no Brasil, numerosas investigações apresentaram resultados bastante informativos. Discutiu-se se as melíponas seriam generalistas ou fidelistas, chegando-se à conclusão de que, sendo o pasto farto, permaneceriam fiéis na coleta de néctar e pólen a uma espécie de planta. Com a escassez cada vez maior de fontes alimentícias, sejam de natureza ambiental ou provocada pela atividade humana, as abelhas ficaram obrigadas a recorrer a um maior número de fontes fornecedoras de alimento, tornando-se generalistas. Assim, de modo semelhante, tem-se observado este comportamento também nas abelhas Apis (Ramalho et al. 2007, Wilms & Wichers 1997).

Muito importante também é o porte da vegetação disponível (Ramalho 2004). As pequenas jataís costumam visitar estratos mais baixos. No presente caso coletaram pólen de gramíneas e caapeba, mas não conseguiram satisfazer sua demanda em néctar. As abelhas mais vigorosas como a iraí e a mandaçaia alcançaram estratos arbustivos (cambará e murtas) e arbóreos mais altos como angico, aroeira, palmeira e ervas de passarinho, principalmente na coleta de néctar, produzindo méis monoflorais. A significativa presença de pólen anemófilo e esporos de fungos comprova a insuficiência do pasto apícola para estas abelhas na área de Formiga, estando em acompanhamento de reflorestamento.

Abelhas africanizadas de gênero Apis não foram instaladas na área de Formiga. Elas apresentam grande interesse na coleta de néctar e pólen de plantas introduzidas (exóticas) como o eucalipto e as frutas cítricas (Barth & Coré-Guedes 1999). Espécies de plantas exóticas, cultivares e/ou introduzidas na vegetação nativa da Mata Atlântica, tal como o eucalipto e culturas de laranjeiras e hortaliças não ocorriam dentro da área em recuperação de vegetação. Embora ocorressem nos arredores mais distantes, o seu pólen não foi detectado nas amostras de mel e pólen analisadas. Isto demonstra um desinteresse das abelhas nativas pelas plantas que não fazem parte do seu pasto habitual.

Considerações finais.

Agindo como assíduas polinizadoras das plantas apícolas citadas, as abelhas comprovaram que a representatividade e diversidade destas plantas identificadas durante um ano e meio de acompanhamento foram inferiores às suas necessidades.

Conclui-se destas observações que plantas anemófilas foram significativamente importantes para a subsistência da pequena abelha jataí, enquanto que plantas nectaríferas são alcançadas com maior facilidade pelas abelhas mais robustas como a iraí e a mandaçaia. Sendo assim, o replantio em áreas devastadas deve comportar estes dois grupos de plantas, pois, além de ocuparem todos os níveis estruturais de uma vegetação, fornecem pólen durante o ano todo para a manutenção das colônias de abelhas sem ferrão, garantindo a polinização, propagação e recuperação vegetal, no caso o bioma Mata Atlântica. De outro lado, visando à polinização de espécies pertencentes a diferentes estratos vegetais, será necessário introduzir várias espécies de abelhas sem ferrão para garantir eficiência no reflorestamento de uma área degradada.

Não houve coletas em oito de 19 meses por várias razões. Uma vez por falta de produtos estocados nos ninhos, mostrando de um lado a carência alimentar existente na área e de outro lado o difícil acesso às colméias devido à violência urbana existente na região. A área durante o período de coleta estava carente em fontes alimentares, principalmente para a abelha jataí que não conseguiu produzir mel monofloral e coletou muito pólen anemófilo. Pela quantidade de espécies vegetais visitadas, a ação polinizadora das três espécies de abelhas foi eficiente neste curto espaço de tempo.

Espera-se que este quadro possa mudar e a recuperação da área degrada de Formiga possa prosseguir a crescer um dia em colaboração com a população da comunidade, de nossas abelhas e de espécies vegetais nativas.

Agradecimentos

Apoio financeiro agradecemos ao CNPq, à CAPES e Prefeitura do Rio de Janeiro.

Referências

Barth OM 1989. O pólen no mel brasileiro. Gráfica Luxor. 150p.

Barth OM, Coré-Guedes J. 1999. Caracterização de méis de laranjeiras procedentes dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo, por meio da análise polínica. LECTA, Bragança Paulista 17: 27-35.

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Moraes D, Assumpção JM, Pereira TS, Luchian C. 2006. Manual técnico para a restauração de áreas degradadas no Estado do Rio de Janeiro. Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro. 80p.

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