Que Abelha é esta?


A abelha sem ferrão Scaura longula (jataí-preta) de Goiás. Características e curiosidades

Marilda Cortopassi-Laurino ([email protected])

A jataí-preta é um meliponíneo pequeno em tamanho e que tem como principal característica diferencial morfológica dos seus ninhos a presença dos favos de cria construídos na posição vertical (fig.2), enquanto todos os outros meliponíneos conhecidos no Brasil constroem seus favos na posição horizontal ou helicoidal. Nesta espécie, quando as células são construídas e preenchidas com alimento larval e depois com ovos, elas permanecem no sentido vertical, entretanto, com o passar do tempo, elas se posicionam no sentido horizontal até a eclosão das abelhas.

Fig.1 Distribuição de Scaura longula na região Neotropical: Bolívia (El Beni); Brasil (Amapá, Amazonas, Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, São Paulo); Colômbia (Cundinamarca, Meta); Peru (Junín, Loreto, Pasco, San Martín); Suriname. Fonte: Moure ́s bee catalogue.

Fig.1 Distribuição de Scaura longula na região Neotropical: Bolívia (El Beni); Brasil (Amapá,
Amazonas, Bahia, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, São Paulo); Colômbia
(Cundinamarca, Meta); Peru (Junín, Loreto, Pasco, San Martín); Suriname. Fonte: Moure ́s bee
catalogue. <http://maps.cria.org.br/mapcria/viewer4.0?server=mapcria3.cria>

O comportamento de proteção dos ninhos das abelhas sem ferrão é bastante amplo variando desde estruturas defensivas, nidificação em agregados ou junto com formigas, cupins e vespas até comportamento individual de beliscar a pele em locais sensíveis como pálpebras e narinas além de vibrar nos pelos e cabelos e ainda de depositar grumos de resina no intruso.

A jataí-preta, que é uma espécie muito dócil, apresentou comportamento inusitado: ao longo de alguns dias abelhas campeiras que retornavam ao ninho depositavam uma ou duas gotículas muito densas, provavelmente néctar, nas proximidades da entrada, que eram rapidamente ingeridas por 1-3 vespas Polybia emaciata. Estas vespas investiam contra as próprias abelhas e também contra uma barata que foi observada lambendo os detritos de lixo jogados na porta do ninho.

Ao longo das observações, as vespas chegavam cedo, ao mesmo tempo em que iniciava o movimento externo, entre 20.7-20.9ºC e 84-93% de UR e permaneciam até o final da tarde, quando começava a escurecer. Havia dominância de coleta destas gotículas por uma das vespas embora entre elas ocorresse trofalaxis.

A maior parte das gotículas (60%, n=109) foi depositada ao redor de 10 cm da entrada do ninho e ao longo do dia aumentou progressivamente até uma hora antes do pico do movimento externo, ocorrido as 16h00min, quando elas foram depositadas em até 30cm de distancia. Se este comportamento é eventual, não é conhecido, mas este período de interação abelha-vespa coincidiu com a ampliação do comprimento e largura da porta, talvez associado com fase de enxameação do ninho como ocorre em outras abelhas dóceis, quando talvez a vulnerabilidade das abelhas e ninhos aumente. Outra possibilidade, independente do tempo, seria a recompensa do monitoramento pelas vespas porque esta abelha joga o lixo na porta, e deste lixo armazenado já foi observado emergiram pequenas mariposas.

Fig. 2 favos de cria com disposição vertical da abelha jataí-preta (Scaura longula). Fotos de Marilda Cortopassi-Laurino.

Fig. 2 favos de cria com disposição vertical da abelha jataí-preta (Scaura longula).
Fotos de Marilda Cortopassi-Laurino.

Depois de identificadas estas vespas e seus ninhos característicos construídos com argila, pudemos constatar que elas são comuns na região onde a Scaura também é nativa.

Relações positivas observadas entre abelhas sem ferrão e outros insetos sugadores de plantas principalmente cigarrinhas e cochonilhas que são comuns e conhecidas desde há muito tempo foram resumidas por Camargo e Pedro (2004). O único relacionamento não agressivo conhecido entre abelhas sem ferrão e vespas é o citado por Rassmussen (2004) quando da nidificação de Trigona cilipes em vespeiros de Epipona tatua na região do Peru. Esta nossa observação indica que relações positivas podem se desenvolver entre estes dois grupos de insetos sociais e que investigações nas características destas gotículas poderão elucidar o motivo desta coleta por parte das vespas já que na natureza estavam disponíveis outras fontes de néctar.

Bibliografia

Camargo JM, Pedro S, (2004) Mutualistic Association between a Tiny Amazonian Stingless Bee and a Wax Producing Scale Insect. Biotrópica 34 (3): 446-451

Fig. 3 entrada do ninho da abelha jataí-preta (Scaura longula). Fotos de Marilda Cortopassi-Laurino.

Fig. 3 entrada do ninho da abelha jataí-preta (Scaura longula).
Fotos de Marilda Cortopassi-Laurino.

Rassmussen C, (2004) A Stingless Bee Nesting with a Paper Wasp (Hymenoptera, Apidae, Vespidae). Journal of the Kansas Entomological Society 77(4):593-601

http://moure.cria.org.br/catalogue?id=34490

Homenagem

Mais uma abelha voou em direção ao sol, mas deixou sua sombra nos múltiplos trabalhos realizados em prol das abelhas. Agradecemos de coração ao Constantino Zara a sua passagem pelos caminhos apícolas.