{"id":720,"date":"2015-10-05T17:28:12","date_gmt":"2015-10-05T17:28:12","guid":{"rendered":"http:\/\/apacame.org.br\/site\/?page_id=720"},"modified":"2015-10-05T17:55:42","modified_gmt":"2015-10-05T17:55:42","slug":"artigo5","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/apacame.org.br\/site\/revista\/mensagem-doce-n-133-setembro-de-2015\/artigo5\/","title":{"rendered":"Artigo"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\" align=\"center\">Estranha no ninho<\/h1>\n<h5 align=\"justify\"><em>Fonte: Revista FAPESP &#8211; Ed. 212 &#8211; Francisco Bicudo<\/em><\/h5>\n<p align=\"center\"><em><strong>Rainha forasteira invade colmeia \u00f3rf\u00e3<br \/>\ne assume o comando das oper\u00e1rias<\/strong><\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_722\" aria-describedby=\"caption-attachment-722\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Figura_1_Estranha.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-722 size-medium\" src=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Figura_1_Estranha-300x160.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"160\" srcset=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Figura_1_Estranha-300x160.jpg 300w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Figura_1_Estranha-1024x547.jpg 1024w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Figura_1_Estranha-150x80.jpg 150w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Figura_1_Estranha-500x267.jpg 500w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Figura_1_Estranha.jpg 1218w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-722\" class=\"wp-caption-text\">A abelha rainha, marcada com etiqueta: eleita pelas irm\u00e3s para receber dieta especial e ser a procriadora do grupo &#8211; foto Denise de Ara\u00faj o Alves\/USP-Ribeir\u00e3o Preto.<\/figcaption><\/figure>\n<p align=\"justify\">As abelhas da esp\u00e9cie Melipona scutellaris, comuns na regi\u00e3o Nordeste do Brasil, s\u00e3o conhecidas por n\u00e3o ferroarem (t\u00eam um ferr\u00e3o atrofiado), por produzirem mel em abund\u00e2ncia e por gerarem muitas rainhas numa mesma col\u00f4nia. Apenas uma, no entanto, \u00e9 escolhida para comandar a colmeia. \u00c0s outras, quando n\u00e3o s\u00e3o mortas pelas oper\u00e1rias, resta respeitar a linha sucess\u00f3ria e aguardar pacientemente a morte da soberana original. Ou, se derem sorte, abandonar a casa de origem e formar novas col\u00f4nias com parte das oper\u00e1rias irm\u00e3s.<\/p>\n<p align=\"justify\">At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s essas eram as \u00fanicas formas conhecidas pelas quais as abelhas aspirantes ao papel de rainha \u2013 os bi\u00f3logos as chamam de rainhas virgens \u2013 podiam ascender ao poder. Agora se sabe que esse repert\u00f3rio \u00e9 maior.<\/p>\n<p align=\"justify\">Estudos realizados pela bi\u00f3loga Denise de Araujo Alves e seus colaboradores revelam que as abelhas Melipona scutellaris, mais conhecidas como uru\u00e7unordestina, podem adotar um terceiro e mais arriscado caminho para chegar ao topo da hierarquia social.<\/p>\n<p align=\"justify\">Em muitas situa\u00e7\u00f5es, as rainhas virgens escapam de serem mortas pelas oper\u00e1rias e abandonam seus pr\u00f3prios ninhos. Durante a fuga, elas conseguem identificar e invadir colmeias que se tornaram \u00f3rf\u00e3s com a morte da soberana original, m\u00e3e das demais abelhas da col\u00f4nia. Com essa estrat\u00e9gia furtiva, abelhas sem um reino pr\u00f3prio agem como parasitas sociais: conseguem se impor \u00e0s oper\u00e1rias que n\u00e3o s\u00e3o suas parentes e se beneficiam do trabalho delas. \u201c\u00c9 a luta pela sobreviv\u00eancia\u201d, conta Denise, pesquisadora da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) em Ribeir\u00e3o Preto.<\/p>\n<p align=\"justify\">Os trabalhos de Denise indicam ainda que as invas\u00f5es t\u00eam hora marcada. Acontecem ao cair da tarde, quando \u00e9 quase noite e as oper\u00e1rias que fazem a guarda dos ninhos est\u00e3o menos alertas. \u201cParece ser uma a\u00e7\u00e3o calculada\u201d,<br \/>\ncompleta a bi\u00f3loga.<\/p>\n<figure id=\"attachment_724\" aria-describedby=\"caption-attachment-724\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Figura_2_Estranha.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-724 size-medium\" src=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Figura_2_Estranha-300x209.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"209\" srcset=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Figura_2_Estranha-300x209.jpg 300w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Figura_2_Estranha-150x104.jpg 150w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/10\/Figura_2_Estranha.jpg 356w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-724\" class=\"wp-caption-text\">Chip permitiu rastrear rainhas virgens queocuparam ninhos vagos ap\u00f3s a morte da rainha original foto Denise de Ara\u00faj o Alves\/ USP-Ribeir\u00e3o Preto.<\/figcaption><\/figure>\n<p align=\"justify\">A hip\u00f3tese da ocupa\u00e7\u00e3o de col\u00f4nias por rainhas invasoras foi sugerida pela primeira vez em 2003 pelo pesquisador holand\u00eas Marinus Sommeijer. Trabalhando com abelhas Melipona favosa na Costa Rica e em Trinidad e Tobago, Sommeijer e sua equipe notaram que algumas col\u00f4nias pareciam ter sido invadidas por forasteiras. Mas suas observa\u00e7\u00f5es n\u00e3o permitiam confirmar a suspeita. Em 2008, durante seu doutorado, Denise e seus colaboradores decidiram retomar o problema e acompanharam duas popula\u00e7\u00f5es de Melipona scutellaris \u2013 uma mantida no Laborat\u00f3rio de Abelhas do Instituto de Bioci\u00eancias da USP, em S\u00e3o Paulo, e outra na fazenda Aretuzina, em S\u00e3o Sim\u00e3o, no interior do estado, de propriedade de Paulo NogueiraNeto, um dos pioneiros nas pesquisas com abelhas sem ferr\u00e3o. Nessas duas popula\u00e7\u00f5es, a pesquisadora coletou pupas de oper\u00e1rias de 23 ninhos em dois momentos: antes e depois da substitui\u00e7\u00e3o das rainhas m\u00e3e.<\/p>\n<p align=\"justify\">Ao comparar as caracter\u00edsticas gen\u00e9ticas da prole de cada col\u00f4nia, os pesquisadores esperavam descobrir se a rainha morta havia sido substitu\u00edda por outra rainha da pr\u00f3pria col\u00f4nia ou por uma invasora.<\/p>\n<p align=\"justify\">Na Universidade de Leuven, na B\u00e9lgica, em parceria com o bi\u00f3logo Tom Wenseleers, Denise analisou o parentesco das pupas com uso de marcadores gen\u00e9ticos e verificou que os 23 ninhos haviam passado por 24 trocas de rainhas. Em seis casos (25% do total), o comando da colmeia havia sido conquistado por uma rainha invasora \u2013 essas abelhas s\u00e3o chamadas de parasitas sociais porque seus descendentes recebem os cuidados de oper\u00e1rias com as quais n\u00e3o t\u00eam parentesco gen\u00e9tico.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cA invas\u00e3o permite agora entender por que em algumas esp\u00e9cies \u00e9 comum encontrar tantas rainhas num mesmo ninho\u201d, explica a bi\u00f3loga Vera L\u00facia Imperatriz Fonseca, uma das mais respeitadas estudiosas de abelhas no pa\u00eds e orientadora de Denise no doutorado. Segundo Denise, a presen\u00e7a de v\u00e1rias rainhas numa mesma col\u00f4nia era entendida como uma esp\u00e9cie de reserva para a eventual morte da soberana original ou para a funda\u00e7\u00e3o de um ninho filho.<\/p>\n<p align=\"justify\">\u201cMostramos que, caso escapem de serem mortas em suas col\u00f4nias natais, algumas rainhas saem delas, acasalam com machos nas proximidades do ninho e penetram, j\u00e1 fecundadas, em col\u00f4nias \u00f3rf\u00e3s da popula\u00e7\u00e3o\u201d, diz a bi\u00f3loga. Uma vez instaladas nas novas col\u00f4nias, essas rainhas iniciam a postura de ovos e se aproveitam do trabalho de oper\u00e1rias n\u00e3o aparentadas para manter sua prole.<\/p>\n<p align=\"center\"><em><strong>Ao Anoitecer<\/strong><\/em><\/p>\n<p align=\"justify\">Depois de comprovar a exist\u00eancia de rainhas invasoras, Denise come\u00e7ou a investigar a raz\u00e3o do sucesso das forasteiras. Em outro trabalho feito em parceria com o grupo de Leuven, os pesquisadores brasileiros acompanharam por dois meses o cotidiano de oito col\u00f4nias de Melipona scutellaris no Laborat\u00f3rio de Comportamento e Ecologia de Insetos Sociais da USP em Ribeir\u00e3o Preto, coordenado por F\u00e1bio Nascimento. Entre fevereiro e mar\u00e7o de 2012, a equipe identificou 520 rainhas virgens e marcou cada uma com um min\u00fasculo chip no t\u00f3rax. Um leitor instalado na entrada de cada col\u00f4nia registrava a passagem dessas abelhas \u2013 tanto as do pr\u00f3prio ninho quanto as invasoras.<\/p>\n<p align=\"justify\">Nos 40 dias em que acompanharam a movimenta\u00e7\u00e3o das rainhas, os pesquisadores identificaram o tr\u00e2nsito de oito rainhas, das quais tr\u00eas eram parasitas sociais. De acordo com os dados, apresentados na edi\u00e7\u00e3o de setembro da Animal Behaviour, as invas\u00f5es aconteceram sempre ao cair da tarde ou no come\u00e7o da noite, entre as 17 e as 20 horas. \u201cDurante o dia h\u00e1 uma movimenta\u00e7\u00e3o intensa de entrada de p\u00f3len e n\u00e9ctar na colmeia e muitas oper\u00e1rias ficam alertas, tomando conta das entradas das col\u00f4nias para evitar furtos dos seus estoques de alimento\u201d, conta Denise. \u201c\u00c9 dif\u00edcil furar esse bloqueio.\u201d J\u00e1 no final da tarde, quando a busca por comida diminui e a luminosidade \u00e9 mais baixa, essa vigil\u00e2ncia fica reduzida e as rainhas parasitas aproveitam esses descuidos. Denise suspeita que as rainhas invasoras identifiquem as col\u00f4nias \u00f3rf\u00e3s guiandosepor pistas qu\u00edmicas. \u201cNossos dados mostraram que as rainhas entram nos ninhos no fim da tarde e que s\u00f3 invadem os ninhos \u00f3rf\u00e3os\u201d, conta.<\/p>\n<p align=\"justify\">Al\u00e9m das implica\u00e7\u00f5es evolutivas desse fen\u00f4meno, as invas\u00f5es de colmeias pode influenciar o trabalho dos criadores de abelhas, que normalmente selecionam e dividem os ninhos levando em conta a capacidade de produ\u00e7\u00e3o de mel de uma col\u00f4nia. \u201cCom o parasitismo, outra linhagem gen\u00e9tica toma conta da col\u00f4nia e a efici\u00eancia de produ\u00e7\u00e3o pode mudar com o nascimento de oper\u00e1rias filhas da rainha invasora\u201d, alerta Denise.<\/p>\n<p align=\"justify\">Do ponto de vista ecol\u00f3gico, a ocupa\u00e7\u00e3o do ninho alheio representa um mecanismo eficiente de dispersar seus genes. \u201cDessa maneira, a variabilidade gen\u00e9tica de uma popula\u00e7\u00e3o pode ser alterada porque o parasitismo social pode aumentar o fluxo g\u00eanico entre popula\u00e7\u00f5es.\u201d popula\u00e7\u00e3o pode ser alterada porque o parasitismo social pode aumentar o fluxo g\u00eanico entre popula\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p align=\"justify\">Para Vera Fonseca, o que Denise observou nas colmeias de Melipona scutellaris pode ser um fen\u00f4meno mais geral, que ocorre com outras esp\u00e9cies do g\u00eanero Melipona e com abelhas com ferr\u00e3o. \u201cCom as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, as Melipona scutellaris provavelmente ir\u00e3o buscar ambientes a que se adaptem melhor\u201d, diz Vera, que \u00e9 professora na USP em S\u00e3o Paulo. \u201cCaso seja necess\u00e1rio fazer o deslocamento assistido dessa esp\u00e9cie, \u00e9 relevante conhecer como essas abelhas estruturam geneticamente a sua popula\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Como pr\u00f3ximo passo, Denise planeja usar os chips e os detectores para estudar a din\u00e2mica de esp\u00e9cies que produzem poucas rainhas. \u201cQueremos verificar se esse comportamento invasivo tamb\u00e9m ocorre em outras esp\u00e9cies que n\u00e3o perten\u00e7am ao g\u00eanero Melipona\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estranha no ninho Fonte: Revista FAPESP &#8211; Ed. 212 &#8211; Francisco Bicudo Rainha forasteira invade colmeia \u00f3rf\u00e3 e assume o comando das oper\u00e1rias As abelhas da esp\u00e9cie Melipona scutellaris, comuns [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":595,"menu_order":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","template":"","meta":{"pmpro_default_level":"","_price":"","_stock":"","_tribe_ticket_header":"","_tribe_default_ticket_provider":"","_tribe_ticket_capacity":"0","_ticket_start_date":"","_ticket_end_date":"","_tribe_ticket_show_description":"","_tribe_ticket_show_not_going":false,"_tribe_ticket_use_global_stock":"","_tribe_ticket_global_stock_level":"","_global_stock_mode":"","_global_stock_cap":"","_tribe_rsvp_for_event":"","_tribe_ticket_going_count":"","_tribe_ticket_not_going_count":"","_tribe_tickets_list":"[]","_tribe_ticket_has_attendee_info_fields":false,"cybocfi_hide_featured_image":"","footnotes":""},"class_list":["post-720","page","type-page","status-publish","hentry","pmpro-has-access"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/720"}],"collection":[{"href":"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=720"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/720\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":727,"href":"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/720\/revisions\/727"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/595"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=720"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}