{"id":3757,"date":"2020-10-16T14:52:16","date_gmt":"2020-10-16T14:52:16","guid":{"rendered":"http:\/\/apacame.org.br\/site\/?page_id=3757"},"modified":"2020-10-16T14:52:16","modified_gmt":"2020-10-16T14:52:16","slug":"artigo-4","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/apacame.org.br\/site\/revista\/mensagem-doce-n-158-setembro-de-2020\/artigo-4\/","title":{"rendered":"Artigo"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">A CRONICA DA MORTE ANUNCIADA<\/h1>\n<blockquote><p>Texto: Carlos Pamplona Rehder \u2013 Presidente da C\u00e2mara Setorial do Mel do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-size: large;\">A Cadeia de Mel e Pr\u00f3polis est\u00e1 se organizando. A Federa\u00e7\u00e3o de Apicultura do Estado de S\u00e3o Paulo est\u00e1 propondo uma reuni\u00e3o para a cria\u00e7\u00e3o de um plano estrat\u00e9gico e de governan\u00e7a. Precisa haver coopera\u00e7\u00e3o entre apicultores e entrepostos. Mas at\u00e9 hoje eles se v\u00eam como inimigos. Quando justamente deveria ser o contr\u00e1rio. Um setor n\u00e3o sobrevive sem o outro. O apicultor n\u00e3o consegue atender o mercado e o entreposto precisa de produto para vender.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"> Por que \u00e9 t\u00e3o importante fazer uma estrat\u00e9gia do setor? Vamos verificar como a falta de estrat\u00e9gia conseguiu destruir mercados importantes do setor ap\u00edcola brasileiro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Primeira morte de um mercado 1997<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Em meados dos anos 90, o mercado japon\u00eas descobriu Artepelin C, tornando a pr\u00f3polis brasileira em um produto premium e come\u00e7ou a comprar em grandes quantidades. Inclusive pagou valores adiantados para a constru\u00e7\u00e3o de cooperativas e f\u00e1bricas no Brasil, que depois foram pagas com a exporta\u00e7\u00e3o da pr\u00f3polis verde bruta. S\u00f3 que o mercado estava muito aquecido e ao inv\u00e9s de se fazer uma a\u00e7\u00e3o para fomentar o aumento da produ\u00e7\u00e3o e o brasileiro produzir o dobro e ganhar o dobro com dois quilos, resolveram inflacionar a mat\u00e9ria prima e ganhar mais com o mesmo quilo. Como o mercado n\u00e3o aceita desaforos, foi criada uma associa\u00e7\u00e3o de importadores de pr\u00f3polis no Jap\u00e3o e eles pararam de comprar por alguns meses a pr\u00f3polis do Brasil. A pr\u00f3polis estava custando em 1995-1996 cerca de R$ 160 reais por kg no campo, caiu para R$ 30 reais o quilo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Perda de mercado de pr\u00f3polis mercado Jap\u00e3o 1994-1995<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Segunda morte de um mercado 2003<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Depois da perda do mercado de pr\u00f3polis, o setor continuou a trabalhar, vendendo principalmente mel e pr\u00f3polis nas farm\u00e1cias (que era uma novidade) e mel para os entrepostos para a produ\u00e7\u00e3o de iogurtes. Nesta \u00e9poca os iogurtes \u201ccom mel\u201d eram ado\u00e7ados exclusivamente com mel e n\u00e3o podiam ter glicose ou a\u00e7\u00facar no produto. Inclusive existiam importa\u00e7\u00f5es de mel Uruguai para suprir o mercado, pois a produ\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o era suficiente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Em 2002-2003, a China foi proibida de exportar para a Europa por terem sido encontrados produtos antibi\u00f3ticos e contaminantes no mel. E por outro lado, os Estados Unidos criaram uma taxa anti-duping (quando o pre\u00e7o vendido \u00e9 mais baixo que o custo de produ\u00e7\u00e3o) de 300% \u00e0 vista na alfandega. Com isso, o mel chin\u00eas que era exportado com grande quantidade (cerca de 100 mil toneladas) ficou retido na china. Os alem\u00e3es, grandes importadores e grandes re-exportadores, ficaram desesperados e desenvolveram novos fornecedores. Nesta \u00e9poca, o Brasil n\u00e3o exportava mel, e os entrepostos n\u00e3o estavam preparados para exportar, mas, mesmo assim, se adequaram e come\u00e7aram a exportar para suprir os importadores alem\u00e3es. Com a alta na demanda e uma desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial, houve um repique de pre\u00e7os no campo, o mel que era comprado em S\u00e3o Paulo por R$ 2,50\/kg e em outros lugares abaixo de R$2,00, pulou para R$ 10,00\/kg. Isso fez com que a exporta\u00e7\u00e3o deslocasse 50% do volume do mel produzido no Brasil para suprir as exporta\u00e7\u00f5es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Com a falta de mat\u00e9ria prima (Mel) e com pre\u00e7os 500% mais altos. E como o mercado n\u00e3o leva desaforo, o setor de iogurtes, bem preparado e organizado, n\u00e3o aceitou o aumento. Criou junto do Minist\u00e9rio da Agricultura uma legisla\u00e7\u00e3o que possibilita que iogurtes com mel tenham um ingrediente chamado \u201cpreparado de mel\u201d (\u00e1gua, xarope de a\u00e7\u00facar, glicose, mel, amido, aromatizante). Isso possibilitou eles continuarem a escrever Iogurte Com Mel<br \/>\ne os ajudou a manter os custos de produ\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Terceira morte de um mercado 2006<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Com o mercado de exporta\u00e7\u00e3o a granel de mel crescendo, os entrepostos constru\u00edram novas sedes aptas a exportar volumes maiores a granel. Estes exportavam 50% do mel produzido pelos apicultores Brasil em containers com 50 ou 70 tambores de 285kg cada. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Mas com o embargo europeu ao mel chin\u00eas, a Europa criou novas regras para controle de res\u00edduos para a importa\u00e7\u00e3o de produtos agr\u00edcolas para a Europa. Cada pa\u00eds exportador deveria criar oficialmente um plano nacional de controle de res\u00edduos. Isso deveria ser implantado por todos os fornecedores. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">S\u00f3 que, em meados de 2006, os importadores alem\u00e3es avisaram seus exportadores brasileiros que o mel proveniente do Brasil seria embargado por falta de um plano nacional de controle de res\u00edduos criado e controlado pelo governo brasileiro. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Mesmo sendo todo lote exportado do Brasil para a Europa analisado por laborat\u00f3rio europeu (a pedido dos importadores), o governo europeu queria um controle governamental e para todos os produtos agr\u00edcolas. E o mel Brasileiro foi embargado. O mercado n\u00e3o aceita desaforo. Por dois meses, as exporta\u00e7\u00f5es de mel do Brasil para a Europa cessaram. Ca\u00edram a zero. E depois disso, o mel come\u00e7ou a fluir para os Estados Unidos, com o valor exportado na casa de 50% mais barato do que era exportado para a Europa. Pr\u00f3ximo dos USD 1700\/tonelada<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Quarta morte de um mercado 2016<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">O mel Brasileiro, sempre bem cotado, por ser de abelhas africanizadas, mais resistentes a doen\u00e7as, mais defensivas, requerem que sejam alocadas a 1km de qualquer outra habita\u00e7\u00e3o ou animal, bem distante de tudo, no meio do mato. E por termos uma mata nativa em torno de 66% do nosso territ\u00f3rio nacional, conforme dados da Embrapa, temos vasta \u00e1rea para a produ\u00e7\u00e3o de mel org\u00e2nico. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Em 2010-2012, o mercado de mel a granel org\u00e2nico come\u00e7ou a crescer para os Estados Unidos. E os pre\u00e7os que eram relativamente baixos, come\u00e7ou a ganhar um premium. Chegamos exportar em 2016 cerca de 95% de todo o mel org\u00e2nico que os Estados Unidos importavam. E os Estados Unidos importam muito. S\u00e3o os maiores importadores de mel org\u00e2nico do mundo. Isso fez com que o mercado de mel se aquecesse e por falta aumento de produ\u00e7\u00e3o, os pre\u00e7os subiram, muito. O mel era comprado do apicultor por cerca de R$ 5,96\/kg em 2011, subiu para R$ 7,11\/kg em 2012, R$ 7,44\/kg em 2013, R$ 8,22\/kg em 2014, R$ 9,49\/kg em 2015, R$ 11,88\/kg em 2016 e mais de R$ 14,00\/kg em 2017.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Como o mercado n\u00e3o toma desaforo, o mercado interno que representava 50% do mel produzido no Brasil, encareceu. O consumidor come\u00e7ou a encontrar mel na gondola por R$50\/kg at\u00e9 R$77\/kg. E com isso uma grande camada da popula\u00e7\u00e3o que consome mel \u00e9 de baixa renda, parou de comprar mel. Matamos o mercado nacional de mel.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Quinta morte de um mercado 2017-2018<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Com o pre\u00e7o do mel chegando a mais de R$14 reais por kg, o apicultor ao inv\u00e9s de aumentar grandemente sua produ\u00e7\u00e3o, se manteve ao redor de 40 mil toneladas. O mel que era exportado em meados de 2012 a USD $ 3,13\/kg ou aproximadamente R$ 6,20\/kg. Com a exporta\u00e7\u00e3o de mel org\u00e2nico, com o investimento dos entrepostos em fazer seus projetos de org\u00e2nico, certificando os apicultores para poder exportar, o pre\u00e7o subiu para maio de 2016, chegando a USD 3,54\/kg (R$ 12,45\/kg). Mas mesmo assim, o pre\u00e7o n\u00e3o incentivava o crescimento exponencial da produ\u00e7\u00e3o. O pre\u00e7o da exporta\u00e7\u00e3o chegou a USD 4,775\/kg ou R$ 15,75\/kg. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">O mercado n\u00e3o aceita desaforo. Os americanos desenvolveram mais um fornecedor de mel org\u00e2nico para n\u00e3o ficar na m\u00e3o do produto brasileiro. Sendo assim, a \u00cdndia certificou suas colmeias para mel org\u00e2nico e come\u00e7ou a vender mel org\u00e2nico para os Estados Unidos por USD 2,00\/kg. E o Brasil teve que reduzir seu pre\u00e7o para poder continuar vendendo mel org\u00e2nico a granel no mercado americano.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Sexta morte de um mercado 2020 (COVID)<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Parece que o Brasileiro n\u00e3o aprende. Temos sempre que ganhar tudo, no dia, nunca podemos ganhar o dobro, produzindo o dobro. O brasileiro s\u00f3 quer saber de aumentar o pre\u00e7o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Com a pandemia de corona, a pr\u00f3polis caiu nas gra\u00e7as dos Brasileiros. Um mercado maduro, toda farm\u00e1cia no Brasil tem hoje um pote de extrato de pr\u00f3polis e um spray de mel e pr\u00f3polis. Isso \u00e9 inquestion\u00e1vel. Mas com a covid, temos registros que as vendas aumentaram em 800%. Mas como a pr\u00f3polis \u00e9 produzida entre os meses de novembro a abril, somente restando raspas em maio e junho, a produ\u00e7\u00e3o no campo j\u00e1 estava se acabando no in\u00edcio da covid. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Com isso come\u00e7ou-se a uma grande especula\u00e7\u00e3o e os pre\u00e7os que eram de R$ 100 a 150\/kg reais para a pr\u00f3polis verde chegam a R$ 600\/kg. Com o incremento de custo da mat\u00e9ria prima, o inevit\u00e1vel vai acontecer. Um produto que custa em torno de R$ 10 a 20 reais na gondola da farm\u00e1cia, com 30mL de conte\u00fado liquido, vai passar a custar mais de R$50. E o velho e bom mercado, n\u00e3o leva desaforo para casa. O consumidor n\u00e3o mais comprar\u00e1 a pr\u00f3polis e mais uma vez, perderemos um mercado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">At\u00e9 quando o Brasileiro vai se organizar em uma cadeia, estruturar, produzir, industrializar, vender e ser profissional? Quando o brasileiro vai ganhar o dobro, mas produzindo o dobro e n\u00e3o cobrando o pre\u00e7o dobrado? Quando que o brasileiro vai parar de especular e querer passar todos para tr\u00e1s?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Est\u00e1 na hora do mercado do mel e da pr\u00f3polis amadurecer e se profissionalizar, tanto na ind\u00fastria quanto no campo! <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Gra\u00e7as a Deus!<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A CRONICA DA MORTE ANUNCIADA Texto: Carlos Pamplona Rehder \u2013 Presidente da C\u00e2mara Setorial do Mel do Estado de S\u00e3o Paulo. A Cadeia de Mel e Pr\u00f3polis est\u00e1 se organizando. 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