{"id":3226,"date":"2019-10-14T19:16:39","date_gmt":"2019-10-14T19:16:39","guid":{"rendered":"http:\/\/apacame.org.br\/site\/?page_id=3226"},"modified":"2019-10-14T19:16:39","modified_gmt":"2019-10-14T19:16:39","slug":"artigo-9","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/apacame.org.br\/site\/revista\/mensagem-doce-n-153-setembro-de-2019\/artigo-9\/","title":{"rendered":"Artigo"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">Combina\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos encurta a vida e modifica comportamento de abelhas<\/h1>\n<blockquote><p>Peter Moon &#8211; Ag\u00eancia FAPESP &#8211; Publicado em abril de 2019.<\/p><\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_3227\" aria-describedby=\"caption-attachment-3227\" style=\"width: 267px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Fot-1-combinacao.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-3227\" src=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Fot-1-combinacao-267x300.jpg\" alt=\"Estudo mostrou que dose n\u00e3o letal de inseticida clotianidina reduz em at\u00e9 50% o tempo de vida dos insetos; uso associado com o fungicida piraclostrobin altera comportamento das oper\u00e1rias e pode comprometer a colmeia. Foto adobe stok.\" width=\"267\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Fot-1-combinacao-267x300.jpg 267w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Fot-1-combinacao-150x169.jpg 150w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Fot-1-combinacao-445x500.jpg 445w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Fot-1-combinacao.jpg 749w\" sizes=\"(max-width: 267px) 100vw, 267px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-3227\" class=\"wp-caption-text\">Estudo mostrou que dose n\u00e3o letal de inseticida clotianidina reduz em at\u00e9 50% o tempo de vida<br \/>dos insetos; uso associado com o fungicida piraclostrobin altera comportamento das oper\u00e1rias<br \/>e pode comprometer a colmeia. Foto adobe stok.<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Um novo estudo realizado por bi\u00f3logos brasileiros sugere que o efeito dos agrot\u00f3xicos sobre as abelhas pode ser maior do que se imagina. Mesmo quando usado em doses consideradas n\u00e3o letais, um inseticida encurtou o tempo de vida dos insetos em at\u00e9 50%. Al\u00e9m disso, os pesquisadores observaram que uma subst\u00e2ncia fungicida considerada inofensiva para abelhas alterou o comportamento das oper\u00e1rias, tornando-as let\u00e1rgicas \u2013 fato que pode comprometer o funcionamento de toda a col\u00f4nia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Resultados da pesquisa foram publicados\u00a0na revista Scientific Reports, do grupo Nature. O trabalho foi coordenado por Elaine Cristina Mathias da Silva Zacarin, professora na Universidade Federal de S\u00e3o Carlos (UFSCar), campus Sorocaba. Tamb\u00e9m participaram pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">A FAPESP apoiou a investiga\u00e7\u00e3o por meio do Projeto Tem\u00e1tico &#8220;Intera\u00e7\u00f5es abelha-agricultura: perspectivas para a utiliza\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel&#8221;, coordenado pelo professor Osmar Malaspina, da Unesp de Rio Claro. Tamb\u00e9m houve financiamento da Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior (Capes) e da Cooperativa dos Apicultores de Sorocaba e Regi\u00e3o (Coapis).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">\u00c9 um fato conhecido que diversas esp\u00e9cies de abelhas est\u00e3o desaparecendo em todo o mundo. Na Europa e nos Estados Unidos, o fen\u00f4meno tem sido observado desde o ano 2000. No Brasil, desde pelo menos 2005.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">No Rio Grande do Sul, entre dezembro de 2018 e janeiro de 2019, foi registrada a perda de aproximadamente 5 mil colmeias \u2013 algo equivalente a 400 milh\u00f5es de abelhas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">E n\u00e3o est\u00e3o desaparecendo apenas os indiv\u00edduos da esp\u00e9cie Apis mellifera, abelha de origem europeia e principal respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o comercial de mel. Nas matas brasileiras, h\u00e1 centenas de esp\u00e9cies selvagens possivelmente afetadas. O impacto econ\u00f4mico previsto \u00e9 imenso, pois grande parte da agricultura depende do trabalho de poliniza\u00e7\u00e3o realizado por esses insetos. \u00c9 o caso, por exemplo, de todas as frutas comest\u00edveis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">A causa do sumi\u00e7o repentino em massa tamb\u00e9m j\u00e1 \u00e9 conhecida: a aplica\u00e7\u00e3o indevida e indiscriminada de defensivos agr\u00edcolas. Compostos qu\u00edmicos como inseticidas, fungicidas, herbicidas e acaricidas contaminam as abelhas que saem da col\u00f4nia em busca de p\u00f3len e acabam atingindo toda a colmeia. Uma vez dentro da col\u00f4nia, tais compostos s\u00e3o ingeridos pelas larvas, comprometendo sua longevidade e o funcionamento da col\u00f4nia como um todo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">&#8220;No Brasil, as monoculturas de soja, milho e cana dependem do uso intensivo de inseticidas. A contamina\u00e7\u00e3o das col\u00f4nias de abelhas ocorre quando, por exemplo, os agricultores n\u00e3o respeitam uma margem de seguran\u00e7a m\u00ednima (s\u00e3o recomendados 250 metros) na aplica\u00e7\u00e3o de defensivos agr\u00edcolas entre as lavouras e as \u00e1reas florestais que as margeiam. Tem gente que aplica produtos qu\u00edmicos at\u00e9 o limite da floresta\u201d, disse Malaspina.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">\u201cNa Europa e nos Estados Unidos, as col\u00f4nias de abelhas morrem aos poucos. Desde a constata\u00e7\u00e3o inicial da morte das primeiras abelhas at\u00e9 a morte da col\u00f4nia pode levar um m\u00eas ou at\u00e9 cinco meses. No Brasil n\u00e3o \u00e9 assim. Aqui, as colmeias desaparecem em apenas 24 ou 48 horas. N\u00e3o existe nenhuma doen\u00e7a capaz de matar uma colmeia inteira em 24 horas. S\u00f3 inseticidas podem provocar isso\u201d, disse.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Malaspina destaca que h\u00e1 centenas de ingredientes ativos em inseticidas, fungicidas, herbicidas e acaricidas usados no Brasil.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">\u201c\u00c9 imposs\u00edvel testar em laborat\u00f3rio a a\u00e7\u00e3o de cada um deles. N\u00e3o h\u00e1 dinheiro para isso\u201d, disse.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">No Projeto Colmeia Viva, entre os anos de 2014 e 2017, foi realizado um estudo para identificar, dentre os 44 ingredientes ativos mais usados na agricultura paulista, quais poderiam estar relacionados \u00e0 mortalidade das abelhas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">A equipe do projeto coletou material em 40 munic\u00edpios paulistas. Trabalhando com os apicultores, os agricultores e a ind\u00fastria de defensivos, os pesquisadores recomendaram uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es para proteger api\u00e1rios, como a observa\u00e7\u00e3o de margens de m\u00ednima seguran\u00e7a na aplica\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos e de boas pr\u00e1ticas agr\u00edcolas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Uso associado de defensivos<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Segundo os cientistas, os efeitos ben\u00e9ficos do Projeto Colmeia Viva podem estar come\u00e7ando a surgir. No mesmo per\u00edodo em que sumiram as 5 mil col\u00f4nias de abelhas no Rio Grandes do Sul, as perdas foram menores nos estados de Santa Catarina e Paran\u00e1 \u2013 entre os apicultores paulistas o impacto foi ainda mais reduzido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">&#8220;Mas isso n\u00e3o quer dizer que as abelhas de S\u00e3o Paulo est\u00e3o a salvo dos defensivos agr\u00edcolas. Longe disso. Estamos come\u00e7ando a testar quais s\u00e3o os efeitos sobre as abelhas mel\u00edferas do uso associado de inseticidas com fungicidas. E j\u00e1 descobrimos que um determinado tipo de fungicida, que quando aplicado de modo isolado no campo \u00e9 inofensivo \u00e0s colmeias, ao ser associado a um determinado inseticida se torna nocivo. N\u00e3o chega a matar as abelhas como os inseticidas, mas altera o comportamento dos insetos, comprometendo a col\u00f4nia\u201d, disse Zacarin.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Os ingredientes ativos investigados foram a clotianidina, inseticida usado para controle de pragas nas culturas de algod\u00e3o, feij\u00e3o, milho e soja, e o fungicida piraclostrobina, aplicado nas folhas da maioria das culturas de gr\u00e3os, frutas, legumes e vegetais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">\u201cRealizamos ensaios de toxicidade de agrot\u00f3xicos em larvas de abelhas e em concentra\u00e7\u00f5es ambientais relevantes, ou seja, concentra\u00e7\u00f5es realistas, como as encontradas residualmente no p\u00f3len das flores\u201d, disse Zacarin.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">A observa\u00e7\u00e3o \u00e9 importante. Qualquer agrot\u00f3xico em grandes concentra\u00e7\u00f5es dizima colmeias quase imediatamente. Mas o que os pesquisadores estudam s\u00e3o os efeitos sutis e de m\u00e9dio a longo prazo sobre as colmeias. &#8220;O que nos interessa \u00e9 descobrir a a\u00e7\u00e3o residual dos agrot\u00f3xicos, mesmo em concentra\u00e7\u00f5es baix\u00edssimas, sobre esses insetos\u201d, disse Zacarin.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Mudan\u00e7a de comportamento<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Os testes foram todos feitos in vitro, com insetos confinados dentro de laborat\u00f3rios para n\u00e3o ocorrer contamina\u00e7\u00e3o ambiental. Nessas condi\u00e7\u00f5es, larvas de Apis mellifera foram separadas em grupos diferentes e alimentadas entre o terceiro e o sexto dia de vida com uma dieta composta de a\u00e7\u00facar e geleia real. O que variou foi o tipo de ingrediente t\u00f3xico presente no alimento, sempre em concentra\u00e7\u00f5es diminutas, na faixa de nanogramas (bilion\u00e9simos de grama).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">A dieta do grupo controle n\u00e3o continha agrot\u00f3xico. No segundo grupo, a dieta foi contaminada com o inseticida clotianidina. No terceiro grupo, a contamina\u00e7\u00e3o foi por fungicida (piraclostrobina). E, no quarto grupo, havia uma associa\u00e7\u00e3o do inseticida com o fungicida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">&#8220;Depois do sexto dia de vida, as larvas se tornam pupas e entram em metamorfose, de onde emergem como oper\u00e1rias adultas. No campo, uma abelha oper\u00e1ria vive em m\u00e9dia 45 dias. Em laborat\u00f3rio, confinada, vive menos. Mas os insetos alimentados com a dieta contaminada pelo inseticida clotianidina em baix\u00edssima concentra\u00e7\u00e3o apresentaram tempo de vida drasticamente menor, de at\u00e9 50%\u201d, disse Zacarin.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">J\u00e1 entre as larvas alimentadas com a dieta contaminada apenas pelo fungicida piraclostrobina n\u00e3o se observou nenhum efeito sobre o tempo de vida das oper\u00e1rias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">&#8220;Com base apenas nesse resultado, poder\u00edamos imaginar que o fungicida em baixa concentra\u00e7\u00e3o \u00e9 inofensivo \u00e0s abelhas. Infelizmente, n\u00e3o \u00e9 o que ocorre\u201d, disse a pesquisadora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Nenhuma abelha morreu na fase de larva e de pupa. Por\u00e9m, verificou-se que, na fase adulta, as oper\u00e1rias sofreram modifica\u00e7\u00e3o em seu comportamento. Elas se tornaram mais lentas do que os insetos do grupo controle.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">&#8220;As oper\u00e1rias jovens fazem inspe\u00e7\u00f5es di\u00e1rias na colmeia, o que as leva a percorrer certa dist\u00e2ncia. Elas se movimentam bastante dentro da col\u00f4nia. Verificamos que, no caso das abelhas contaminadas tanto pelo fungicida sozinho ou associado ao inseticida, a dist\u00e2ncia percorrida e a velocidade foram muito menores\u201d, disse Zacarin.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Caso o mesmo ocorra no meio ambiente com parte consider\u00e1vel das oper\u00e1rias de uma colmeia, tal altera\u00e7\u00e3o de comportamento acabaria por prejudicar o funcionamento de toda a col\u00f4nia. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Essa pode ser uma das raz\u00f5es da extin\u00e7\u00e3o em massa de abelhas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Ainda n\u00e3o se sabe de que forma o fungicida age para comprometer o comportamento das abelhas. &#8220;Nossa hip\u00f3tese \u00e9 que a piraclostrobina, quando associada a um inseticida, diminuiria o metabolismo energ\u00e9tico das abelhas. Novos estudos em andamento podem vir a elucidar esse mecanismo\u201d, disse Zacarin.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">O artigo Late effect of larval co-exposure to the insecticide clothianidin and fungicide pyraclostrobin in Africanized Apis mellifera (doi: <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1038\/s41598-019-39383-z\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/doi.org\/10.1038\/s41598-019-39383-z<\/a>), de Rafaela Tadei, Caio E. C. Domingues, Jos\u00e9 Bruno Malaquias, Erasnilson Vieira Camilo, Osmar Malaspina e Elaine C. M. Silva-Zacarin, est\u00e1 publicado em: <a href=\"http:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-019-39383-z\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.nature.com\/articles\/s41598-019-39383-z<\/a>.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Combina\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xicos encurta a vida e modifica comportamento de abelhas Peter Moon &#8211; Ag\u00eancia FAPESP &#8211; Publicado em abril de 2019. 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