{"id":2942,"date":"2019-06-17T23:04:51","date_gmt":"2019-06-17T23:04:51","guid":{"rendered":"http:\/\/apacame.org.br\/site\/?page_id=2942"},"modified":"2019-06-17T23:11:21","modified_gmt":"2019-06-17T23:11:21","slug":"artigo-2","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/apacame.org.br\/site\/revista\/mensagem-doce-n-151-maio-de-2019\/artigo-2\/","title":{"rendered":"Artigo"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">ASPECTOS DA MELIPONICULTURA NO ESTADO DO CEAR\u00c1<\/h1>\n<blockquote><p>Luiz W. Lima-Verde<sup>1<\/sup>, J\u00e2nio A. F\u00e9lix<sup>1<\/sup>, Breno M. Freitas<sup>1<\/sup> \u2013 <sup>1<\/sup>Departamento de Zootecnia &#8211; CCA, Universidade Federal do Cear\u00e1. \u2013 <a href=\"mailto:limaverdelw@yahoo.com\">limaverdelw@yahoo.com<\/a><\/p><\/blockquote>\n<figure id=\"attachment_2945\" aria-describedby=\"caption-attachment-2945\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Figura-1-Aspectos.png\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2945\" src=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Figura-1-Aspectos-300x132.png\" alt=\"Figura 1 \u2013 Melipon\u00e1rio r\u00fastico com col\u00f4nias em corti\u00e7os na horizontal (troncos de madeira) e mel da abelha janda\u00edra (Melipona subnitida) envasado da forma tradicional em recipientes reutilizados.\" width=\"300\" height=\"132\" srcset=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Figura-1-Aspectos-300x132.png 300w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Figura-1-Aspectos-150x66.png 150w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Figura-1-Aspectos.png 500w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2945\" class=\"wp-caption-text\">Figura 1 \u2013 Melipon\u00e1rio r\u00fastico com col\u00f4nias em corti\u00e7os na horizontal (troncos de madeira) e mel da abelha janda\u00edra (Melipona subnitida) envasado da forma tradicional em recipientes reutilizados.<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-size: large;\">A meliponicultura \u00e9 entendida como a cria\u00e7\u00e3o de melipon\u00edneos nas suas diversas formas: profissional, amadorista, educativa e com fins de pesquisa, tanto no meio rural, quanto no meio urbano. Envolve, portanto, o grupo dos melipon\u00edneos, que s\u00e3o esp\u00e9cies de abelhas sociais (vivem em col\u00f4nia) pertencentes \u00e0 fam\u00edlia dos Ap\u00eddeos, nativas das regi\u00f5es tropicais do planeta, e conhecidas popularmente no Brasil como abelhas nativas, abelhas sem ferr\u00e3o, abelhas nativas sem ferr\u00e3o e abelhas ind\u00edgenas sem ferr\u00e3o, por possu\u00edrem ferr\u00e3o atrofiado. O termo \u201cmeliponicultura\u201d foi designado pelo Prof. Paulo Nogueira-Neto em 1953 em alus\u00e3o \u00e0 subfam\u00edlia Meliponinae que engloba essas abelhas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Os melipon\u00edneos no Cear\u00e1<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Os melipon\u00edneos tem sido pouco estudados no estado do Cear\u00e1. At\u00e9 o in\u00edcio deste s\u00e9culo, os melipon\u00edneos descritos para o Cear\u00e1 se resumiam a 31 esp\u00e9cies relatadas nos levantamentos realizados por Ducke (1907, 1908, 1910, 1911), Rocha (1950) e Gon\u00e7alves (1973). Mas essas publica\u00e7\u00f5es foram oriundas de estudos pontuais feitos por amostragens ocasionais devido o pouco interesse cient\u00edfico sobre essas abelhas e as dificuldades de deslocamento existentes no estado em d\u00e9cadas passadas. As informa\u00e7\u00f5es eram t\u00e3o inconsistentes que at\u00e9 trabalhos recentes apresentavam uma diversidade menor de abelhas para o estado, 29 e 26 esp\u00e9cies segundo Camargo e Pedro (2013) e Pedro (2014), respectivamente. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Somente com o advento do s\u00e9culo XXI e o crescente interesse despertado pelas abelhas sem ferr\u00e3o, um n\u00famero maior de estudos sobre essas abelhas passaram a ser feitos no estado, e novas ocorr\u00eancias de melipon\u00edneos e at\u00e9 esp\u00e9cies novas come\u00e7aram a ser descritas: o primeiro relato de ocorr\u00eancia de Melipona quinquefasciata no Nordeste (Lima-Verde &amp; Freitas, 2002); um detalhado cap\u00edtulo de livro revisando as abelhas descritas por Ducke nos estudos acima citados, que inclu\u00edam melipon\u00edneos (Westerkamp et al., 2007); um levantamento da flora e esp\u00e9cies de melipon\u00edneos associados no Maci\u00e7o do Baturit\u00e9 (Lima-Verde, Loiola, &amp; Freitas, 2014; Lima-Verde &amp; Freitas, 2019), uma primeira ocorr\u00eancia de Lestrimellita rufa (Mascena et al., 2017), e duas novas esp\u00e9cies, Scaura sp. nov. (Nogueira et al., submetido) e Paratrigona sp. nov. (Oliveira et al., submetido). Finalmente, uma atualiza\u00e7\u00e3o dos melipon\u00edneos ocorrendo no Cear\u00e1 est\u00e1 sendo preparada por Felix &amp; Freitas (em prepara\u00e7\u00e3o) com 50 esp\u00e9cies j\u00e1 catalogadas. No entanto, a riqueza de esp\u00e9cies de melipon\u00edneos no estado pode ser ainda maior do que a descrita at\u00e9 a presente data.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>A meliponicultura no Cear\u00e1<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">No territ\u00f3rio cearense, a meliponicultura, como em toda a regi\u00e3o Nordeste do Brasil, basicamente destaca-se pela sua secular exist\u00eancia e pr\u00e1tica sobretudo em moldes com tecnologias mais simples, ou seja, a cria\u00e7\u00e3o no sistema tradicional com colmeias r\u00fasticas, pouca higiene na extra\u00e7\u00e3o do mel e quase nenhum cuidado com as col\u00f4nias ao longo do ano. Em geral os criat\u00f3rios s\u00e3o estabelecidos nos alpendres e nas laterais das casas residenciais das propriedades rurais, com a utiliza\u00e7\u00e3o de colmeias dos tipos caixas r\u00fasticas de madeira ou troncos de \u00e1rvores, dispostas horizontalmente. Alguns meliponicultores acomodam as colmeias em pequenas coberturas de telhas nas proximidades das casas (Figura 1). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Em todo o estado, as pr\u00e1ticas de coletas de col\u00f4nias nos ambientes naturais foram mais ou menos as mesmas. De um modo geral constitu\u00eda na derrubada da \u00e1rvore onde se achava alojada a col\u00f4nia, na abertura do tronco e na extra\u00e7\u00e3o do mel e da cera para consumo. Normalmente o p\u00f3len (sabur\u00e1) era considerado coisa ruim e deixado de lado. Neste sistema, ap\u00f3s a coleta do mel, o restante da col\u00f4nia era abandonado e, somente em alguns casos, os troncos habitados eram levados para casa quando j\u00e1 existiam criat\u00f3rios estabelecidos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">O mel, embora usado para consumo, era muito procurado como rem\u00e9dio, o que ainda hoje \u00e9, e em alguns casos, como no sul do estado, era muito usado no fabrico de bebida fermentada (meladinha) para consumo durante os festejos juninos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">A cera foi de muita utilidade como amaciador de cord\u00f5es e correias finas de couro no fabrico dos arreios cavalares (celas, cabe\u00e7adas e cabrestos), bem como, em outros usos dom\u00e9sticos, como no fechamento de latas (antigas latas de querosene) muito utilizadas no armazenamento de produtos agr\u00edcolas. H\u00e1 alguns anos, a cera dessas abelhas foi introduzida no Herb\u00e1rio EAC da Universidade Federal do Cear\u00e1 para a fixa\u00e7\u00e3o das exsicatas na folha de cartolina. Essa pr\u00e1tica foi um sucesso, haja vista que o material bot\u00e2nico fica bem firme, devido a maleabilidade da linha, e facilita a execu\u00e7\u00e3o do n\u00f3. Por outro lado, como a linha fica de colora\u00e7\u00e3o amarronzada com a passagem da cera, n\u00e3o se destaca no quadro da exsicata porque geralmente se confunde com a cor escurecida dos ramos. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Nos criat\u00f3rios em corti\u00e7os ao redor de casa e mesmo em colmeias r\u00fasticas, o processo de coleta do mel de um modo geral caracteriza-se, ainda, pelo sistema de perfura\u00e7\u00e3o dos potes dentro da colmeia ou pelo recurso de esprem\u00ea-los fora j\u00e1 diretamente sobre um pano de coar colocado geralmente numa panela ou balde de pl\u00e1stico. O mel proveniente da perfura\u00e7\u00e3o dos potes \u00e9 escorrido da colmeia tamb\u00e9m sobre um coador aderido a uma vasilha. Em seguida esse mel \u00e9 engarrafado, n\u00e3o havendo neste processo, muita preocupa\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 higiene do produto nem quanto \u00e0 boa apresenta\u00e7\u00e3o do vasilhame utilizado (Figura 1).<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_2946\" aria-describedby=\"caption-attachment-2946\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Figura-2-Aspectos.png\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2946\" src=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Figura-2-Aspectos-300x205.png\" alt=\"Figura 2 - Dr. Paulo Nogueira-Neto com estudantes cearenses em sua fazenda Aretuzina, em S\u00e3o Sim\u00e3o, estado de S\u00e3o Paulo. \" width=\"300\" height=\"205\" srcset=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Figura-2-Aspectos-300x205.png 300w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Figura-2-Aspectos-150x103.png 150w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Figura-2-Aspectos.png 500w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2946\" class=\"wp-caption-text\">Figura 2 &#8211; Dr. Paulo Nogueira-Neto com estudantes cearenses em sua fazenda Aretuzina, em S\u00e3o Sim\u00e3o, estado de S\u00e3o Paulo.<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Mas, com as novas tecnologias de manejo desenvolvidas e postas em pr\u00e1tica desde o advento das publica\u00e7\u00f5es do Prof. Paulo Nogueira-Neto, sobretudo a partir da d\u00e9cada de 1970, muitos meliponicultores passaram a usar modelos de colmeias racionais e manejos mais adequados para as col\u00f4nias. O pr\u00f3prio Prof. Paulo Nogueira-Neto influenciou muito a moderniza\u00e7\u00e3o da meliponicultura no estado, inclusive orientando meliponicultores e estudantes cearenses (Figura 2). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Atualmente est\u00e1 muito em uso no Cear\u00e1 o modelo de colmeias INPA que facilita a divis\u00e3o de col\u00f4nias e a extra\u00e7\u00e3o higi\u00eanica do mel e de outros produtos, como p\u00f3len. Nesses casos, os meliponicultores s\u00e3o bem organizados, tanto na cria\u00e7\u00e3o, com melipon\u00e1rios bem estruturados, quanto no sistema de coleta do mel de forma mais higi\u00eanica, como por exemplo, com o uso de bomba el\u00e9trica (Figura 3). Ap\u00f3s a colheita, o mel \u00e9 submetido aos processos de decanta\u00e7\u00e3o e de matura\u00e7\u00e3o (parece que esse sistema vem sendo o mais utilizado). Geralmente nessas circunst\u00e2ncias os meliponicultores j\u00e1 agregam valores aos seus produtos e utilizam recipientes bem atrativos e com r\u00f3tulos (Figura 3). A comercializa\u00e7\u00e3o do mel, de um modo geral, tem sido diretamente com o consumidor e tamb\u00e9m atrav\u00e9s de exposi\u00e7\u00f5es agropecu\u00e1rias e das feiras tradicionais dos munic\u00edpios. O uso do p\u00f3len, comercialmente, ainda \u00e9 bastante limitado em decorr\u00eancia da pouca procura. Esse produto \u00e9 mais utilizado para a alimenta\u00e7\u00e3o das col\u00f4nias.<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_2947\" aria-describedby=\"caption-attachment-2947\" style=\"width: 300px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Figura-3-Aspectos.png\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2947\" src=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Figura-3-Aspectos-300x104.png\" alt=\"Figura 3 - Melipon\u00e1rio racional com colmeias do modelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisa da Amaz\u00f4nia) e mel da abelha janda\u00edra (Melipona subnitida) envasado em recipientes adequados, lacrados e rotulados.\" width=\"300\" height=\"104\" srcset=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Figura-3-Aspectos-300x104.png 300w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Figura-3-Aspectos-150x52.png 150w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Figura-3-Aspectos.png 500w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-2947\" class=\"wp-caption-text\">Figura 3 &#8211; Melipon\u00e1rio racional com colmeias do modelo INPA (Instituto Nacional de Pesquisa da Amaz\u00f4nia) e mel da abelha janda\u00edra (Melipona subnitida) envasado em recipientes adequados, lacrados e rotulados.<\/figcaption><\/figure>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Regi\u00f5es melipon\u00edcolas do estado do Cear\u00e1<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">No Cear\u00e1, dada as suas condi\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas, clim\u00e1ticas e de tipos de vegeta\u00e7\u00e3o do seu territ\u00f3rio, a meliponicultura apresenta algumas particularidades que lhes s\u00e3o bem caracter\u00edsticas em fun\u00e7\u00e3o desses condicionantes ambientais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Para uma melhor compreens\u00e3o vamos dividir o territ\u00f3rio cearense em tr\u00eas fei\u00e7\u00f5es fisiogr\u00e1ficas distintas, cada uma com suas caracter\u00edsticas ambientais pr\u00f3prias, conforme exp\u00f5e Fernandes (1990): litoral, sert\u00e3o e serranias. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Litoral<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">O litoral, com uma faixa de mais de 500 km, apresenta clima quente (m\u00e9dia de 28oC) e per\u00edodo chuvoso entre janeiro e maio com m\u00e9dia pluviom\u00e9trica de 1200 mm. A cobertura vegetal \u00e9 referida como o complexo vegetacional litor\u00e2neo, devido a ocorr\u00eancia de v\u00e1rios tipos de vegeta\u00e7\u00e3o, destacando-se como principais o cerrado, as matas dos tabuleiros (uma parte subperenif\u00f3lia, arb\u00f3rea, na encosta e abaixo das dunas e uma caducif\u00f3lia, arbustiva-arb\u00f3rea, posterior que atinge os limites da caatinga) e os manguezais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">A meliponicultura, na zona litor\u00e2nea utiliza esp\u00e9cies como o canudo (Scaptotrigona aff. depilis, Scaptotrigona sp.); a cupira (Partamona seridoenses); o mosquito (jati) (Plebeia flavocincta) as quais alguns meliponicultores tem interesse pelas caracter\u00edsticas do mel e do p\u00f3len; e a janda\u00edra (Melipona subnitida) que tamb\u00e9m adentra nas \u00e1reas vegetadas do litoral dada a proximidade do sert\u00e3o com a vegeta\u00e7\u00e3o de caatinga. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Esp\u00e9cies como a mo\u00e7a-branca (Frieseomelitta doederleini) e o breu (zamboque) (Frieseomelitta varia), que ocorrem no sert\u00e3o e em partes de \u00e1reas das serranias e que, possivelmente ocorreram ou ainda est\u00e3o presentes no litoral, s\u00e3o esp\u00e9cies que tamb\u00e9m s\u00e3o exploradas nos melipon\u00e1rios locais, em muitos casos trazidas de outras \u00e1reas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">De um modo geral tem-se verificado que \u00e9 no litoral onde h\u00e1 a maior concentra\u00e7\u00e3o de meliponicultores que criam diversas esp\u00e9cies provenientes de outros ecossistemas onde se destacam, sobretudo, a tiuba (M. compressipes fasciculata), o uru\u00e7u-nordestino (M. scutellaris) e o uru\u00e7u-amarelo (M. flavolineata).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Sert\u00e3o<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">O sert\u00e3o compreende o que chamamos de depress\u00e3o sertaneja em decorr\u00eancia de sua \u00e1rea localizar-se em altitudes mais baixas (100-150 metros). Ocupa mais de 70% do estado, apresenta clima semi\u00e1rido com temperatura m\u00e9dia de 28oC e um per\u00edodo chuvoso de 3-5 meses (janeiro-maio) com 400-700 mm de chuvas anuais. A vegeta\u00e7\u00e3o t\u00edpica \u00e9 a caatinga.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">No sert\u00e3o h\u00e1 uma predomin\u00e2ncia dos criat\u00f3rios utilizando principalmente a janda\u00edra (M. subnitida) esp\u00e9cie que apresenta ampla distribui\u00e7\u00e3o neste bioma. Outras esp\u00e9cies, como a manduri (M. asilvai), a mo\u00e7a-branca (F. doederleini), o breu (F. varia), o mosquito (Plebeia flavocincta) e a cupira (Partamona seridoenses) tamb\u00e9m s\u00e3o exploradas, por\u00e9m, em menor quantidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Serranias<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">As serranias cearenses compreendem as serras cristalinas (serras acidentadas) e as serras sedimentares (chapadas). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Serras cristalinas<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">As serras cristalinas podem atingir altitudes um pouco acima de 1000 metros (1114 m na serra de Baturit\u00e9). Com clima mais ameno e \u00famido, as temperaturas m\u00e9dias podem alcan\u00e7ar valores entre 20-25oC e as precipita\u00e7\u00f5es variam entre 1000-1800 mm, com distribui\u00e7\u00e3o entre os meses de janeiro e maio-junho. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"> Nas suas cotas acima dos 500-600 metros acha-se estabelecida a vegeta\u00e7\u00e3o de mata atl\u00e2ntica (mata \u00famida e mata seca) e abaixo a caatinga.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">As esp\u00e9cies de abelhas mais utilizadas nesses locais s\u00e3o o canudo (quatro esp\u00e9cies), o uru\u00e7u-amarelo (M. flavolineata) (at\u00e9 agora somente no maci\u00e7o de Baturit\u00e9), o camuengo (ira\u00ed) (Nonnatrigona testaceicornis), a cupira (Partamona seridoenses e P. aff. cupira), a mo\u00e7a-branca (duas esp\u00e9cies), o breu (F. varia), o mosquito (duas esp\u00e9cies) e a janda\u00edra nas \u00e1reas voltada para o sert\u00e3o em altitudes abaixo dos 500-600 m.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Serras sedimentares<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Nas serras sedimentares mais elevadas, as altitudes atingem em torno de 900 m e o clima tamb\u00e9m \u00e9 mais ameno e \u00famido com temperaturas e precipita\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s serras cristalinas. Encontram-se mais predominantemente ocupadas pelos cerrados, cerrad\u00f5es e pela vegeta\u00e7\u00e3o do carrasco podendo ocorrer, em alguns locais, pequenas manchas de mata atl\u00e2ntica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Nas \u00e1reas de chapadas, a meliponicultura tamb\u00e9m utiliza esp\u00e9cies de canudo (quatro esp\u00e9cies), mosquito (Plebeia flavocincta), a cupira, a mo\u00e7a branca, o breu, o uru\u00e7u-do-ch\u00e3o (Melipona quinquefasciata), raramente a jata\u00ed (Tetragonisca angustula) e, ao norte do estado, no planalto da Ibiapaba, o uru\u00e7u-amarelo (M. mondury). O uru\u00e7u-do-ch\u00e3o, embora com um grande potencial zoot\u00e9cnico, n\u00e3o se tem ainda um manejo bem definido para a sua explora\u00e7\u00e3o racional. Seu mel \u00e9 bastante procurado, mas a extra\u00e7\u00e3o ocorre atrav\u00e9s da retirada extrativista exercida por meleiros.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Na encosta e \u00e1reas imediatas da chapada do Araripe, no sul do estado, ainda ocorre uma esp\u00e9cie de manda\u00e7aia (Melipona mandacaia) que foi bastante explorada at\u00e9 meados do s\u00e9culo passado e hoje acha-se em grande risco de extin\u00e7\u00e3o em decorr\u00eancia de seu espa\u00e7o restrito nesta microrregi\u00e3o e da continuada coleta de col\u00f4nias nas matas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Perspectivas da meliponicultura no Cear\u00e1<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">O surgimento da Associa\u00e7\u00e3o Cearense de Meliponicultores e a abnegada devo\u00e7\u00e3o de alguns criadores tem aos poucos mudado o cen\u00e1rio da meliponicultura cearense, modernizando-a e capacitando produtores. Neste momento, os meliponicultores est\u00e3o tentando regularizar a meliponicultura no estado do Cear\u00e1 atrav\u00e9s de uma lei que possa facilitar esta atividade entre todos os interessados e, sobretudo, entre os pequenos agricultores que h\u00e1 muitas d\u00e9cadas t\u00eam se dedicado \u00e0 cria\u00e7\u00e3o dessas abelhas como uma fonte complementar de renda. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Finalmente, o reconhecimento dos melipon\u00edneos como importantes polinizadores n\u00e3o somente de flora silvestre, mas tamb\u00e9m de culturas agr\u00edcolas, tem levado a estudos visando identificar as esp\u00e9cies mais adequadas aos cultivos a c\u00e9u aberto e protegidos que existem no estado, bem como o desenvolvimento de manejos adequados a tal fim (Cruz et al., 2004, 2005; Alves &amp; Freitas, 2006; Bomfim et al., 2014; Freitas et al., 2014). <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Bibliografia<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Alves, J.E. &amp; Freitas, B.M. 2006. Comportamento de pastejo e efici\u00eancia de poliniza\u00e7\u00e3o de cinco esp\u00e9cies de abelhas em flores de goiabeira (Psidium guajava L.). Ci\u00eancia Agron\u00f4mica 37: 216-220. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Bomfim, I.G.A; Bezerra, A.D.M.; Nunes, A.C.; Arag\u00e3o, F.A.S.; Freitas, B.M. 2014. Adaptive and foraging behavior of two stingless bee species (Apidae: Meliponini) in greenhouse mini watermelon Pollination. Sociobiology 61(4): 502-509.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Camargo, J.M.F.; Pedro, S.R.M. 2013. Meliponini Lepeletier, 1836. In Moure, J.S., Urban, D.; Melo, G.A.R. (Orgs).\u00a0Catalogue of Bees (Hymenoptera, Apoidea) in the Neotropical Region &#8211; online version.\u00a0Available at http:\/\/www.moure.cria.org.br\/catalogue. Accessed Mar\/26\/2019<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Cruz, D.O.; Freitas, B.M.; Silva, L.A.; Silva, E.M.S. &amp; Bomfim, I.G.A. 2004. Adapta\u00e7\u00e3o e comportamento de pastejo da abelha janda\u00edra (Melipona subnitida Ducke) em ambiente protegido. Acta Scientiarum Animal Sciences 26 (3): 293-298.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">______. 2005. Pollination efficiency of the stingless bee Melipona subnitida on greenhouse sweet pepper. Pesquisa agropecu\u00e1ria Brasileira 40 (12): 1197-1201.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Ducke, A. 1907. Cotribution \u00e0 la connaissance de la faune hym\u00e9nopt\u00e9rologique du Nord-Est du Bresil. Rev. d\u2019Entomol. 26: 73-96.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Ducke, A. 1908. Cotribution \u00e0 la connaissance de la faune hym\u00e9nopt\u00e9rologique du Nord-Est du Bresil \u2013 II. Hym\u00e9nopt\u00e9res r\u00e9colt\u00e9 dans l\u2019Etat de Ceara en 1908 Rev. d\u2019Entomol. 27: 57-81.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">_____. 1910. Explora\u00e7\u00f5es bot\u00e2nicas e entomol\u00f3gicas do Estado do Cear\u00e1. Rev. Trimens. Inst. do Cear\u00e1 4: 3-61.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">_____. 1911. Cotribution \u00e0 la connaissance de la faune hym\u00e9nopt\u00e9rologique du Nord-Est du Bresil \u2013 III. Hym\u00e9nopt\u00e9res r\u00e9colt\u00e9 dans l\u2019Etat de Ceara en 1909 et supplements aux deux listes ant\u00e9rieures. Rev. d\u2019Entomol. 28: 78-122.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Felix, J.A. &amp; Freitas, B.M. Riqueza e distribui\u00e7\u00e3o de melipon\u00edneos (Hymenoptera: Apidae: Meliponini) no Estado do Cear\u00e1, Brasil (em prepara\u00e7\u00e3o).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Fernandes A. 1990. Temas fitogeogr\u00e1ficos. Stylus Comunica\u00e7\u00e3o, Fortaleza, 116p. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Freitas, B.M.; Pacheco Filho, A.J.S.; Andrade, P.B; Lemos, C.Q.; Rocha, E.E.M.; Pereira, N.O.; Bezerra, A.D.M.; Nogueira, D.S.; Alencar, R.L.; Rocha, R.F.; Mendon\u00e7a, K.S. 2014. Forest remnants enhance wild pollinator visits to cashew flowers and mitigate pollination deficit in NE Brazil. Journal of Pollination Ecology, 12(4): 22-30.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Gon\u00e7alves, J.A. 1973. Ocorr\u00eancia e abund\u00e2ncia de abelhas ind\u00edgenas no Estado do Cear\u00e1, Brasil. Boletim Cearense Agronomia, n. 14, 1-13.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Lima-verde, L.W.; Freitas, B.M. 2002. Occurrence and biogeographic aspects of Melipona quinquefasciata in NE Brazil (Hymenoptera, Apidae). Braz. J. Biol. 62 (3): 479-486.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Lima-Verde, L.W.; Loiola, M.I.B. &amp; Freitas, B.M. 2014. Angiosperm flora used by meliponine guilds (Apidae, Meliponina) occurring at rainforest edges in the state of Cear\u00e1, Brazil. Annals of the Brazilian Academy of Sciences 86 (3): 1395-1409.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Lima-Verde, L.W.; Pacheco Filho, A.J.S. &amp; Freitas, B.M. 2019. Stingless bee (Apidae, Meliponini) guilds occurring in the immediate edges of forest fragments of the Baturit\u00e9 Massif, State of Cear\u00e1, Brazil. Annals of the Brazilian Academy of Sciences. (aceito).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Mascena, V.M.; Nogueira, D.S.; Silva, C.M.; Freitas, B.M. 2017. First Record of the Stingless Bee\u00a0Lestrimelitta rufa\u00a0(Friese) (Hymenoptera: Apidae: Meliponini) in NE Brazil and its Cleptobiotic Behavior.\u00a0Sociobiology 64 (3): 359-362.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Oliveira, F.F.; Madella-Auricchio, C.R.; Freitas, B.M. A new species of\u00a0Paratrigona\u00a0Schwarz, 1938 from Northeast Brazil and notes on the type material of Melipona lineata\u00a0Lepeletier, 1836\u00a0(Hymenoptera: Anthophila: Apidae). Sumetido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Pedro, S.R.M. 2014. The Stingless Bee Fauna In Brazil (Hymenoptera: Apidae).\u00a0Sociobiology 61 (4): 348-354.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Rocha, D. 1950. Subs\u00eddio para o estudo da fauna cearense. Rev. do Inst. do Cear\u00e1, v. 64, 138.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Westerkamp, C.; Ribeiro, M.F.; Lima-verde, L.W.; Delpetre, P.G.; Zanella, F.; Freitas, B.M. 2006. Adolpho Ducke e as abelhas (Hymenoptera: apoidea) da serra de Baturit\u00e9, Cear\u00e1. In: Oliveira, T.N.; Ara\u00fajo, F.S. Diversidade e conserva\u00e7\u00e3o da biota na serra de Baturit\u00e9, Cear\u00e1. Fortaleza: UFC\/COELCE. 445p.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ASPECTOS DA MELIPONICULTURA NO ESTADO DO CEAR\u00c1 Luiz W. Lima-Verde1, J\u00e2nio A. F\u00e9lix1, Breno M. 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