{"id":2480,"date":"2018-06-19T23:14:15","date_gmt":"2018-06-19T23:14:15","guid":{"rendered":"http:\/\/apacame.org.br\/site\/?page_id=2480"},"modified":"2018-06-19T23:14:15","modified_gmt":"2018-06-19T23:14:15","slug":"artigo-5","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/apacame.org.br\/site\/revista\/mensagem-doce-n-146-maio-de-2018\/artigo-5\/","title":{"rendered":"Artigo"},"content":{"rendered":"<h1 style=\"text-align: center;\">Atividade polinizadora de abelhas sem ferr\u00e3o em \u00e1rea urbana de reflorestamento no Rio de Janeiro.<\/h1>\n<blockquote><p>Ortrud Monika Barth<sup>1<\/sup>, Alex da Silva de Freitas1,<sup>2<\/sup>, Christiane dos Santos Rio Branco<sup>3<\/sup><\/p>\n<p><sup>1<\/sup> Instituto Oswaldo Cruz, Fiocruz, Avenida Brasil 4365, 21040-900 Rio de Janeiro, Brasil; <a href=\"mailto:barth@ioc.fiocruz.br\">barth@ioc.fiocruz.br<\/a><br \/>\n<sup>2<\/sup> Universidade Federal Fluminense, Niter\u00f3i, Rio de Janeiro, Brasil; <a href=\"mailto:alexsilfre@gmail.com\">alexsilfre@gmail.com<\/a><br \/>\n<sup>3<\/sup> Projeto \u201cMutir\u00e3o Reflorestamento\u201d \u2013 Prefeitura do Rio de Janeiro; <a href=\"mailto:chrismelriobranco@gmail.com\">chrismelriobranco@gmail.com<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Apresenta\u00e7\u00e3o<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">\u00c1reas devastadas em fase de reflorestamento podem, em parte, ter seu desenvolvimento acompanhado e avaliado pela intensidade da atividade de abelhas. Referem-se tanto \u00e0 sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es e suas crias, bem como \u00e0 sua capacidade polinizadora. Neste sentido foram avaliadas tr\u00eas esp\u00e9cies de abelhas nativas sem ferr\u00e3o, a ira\u00ed (Nannotrigona testaceicornes), a jata\u00ed (Tetragonisca angustula) e a manda\u00e7aia (Melipona quadrifasciata anthidioides), implantadas numa \u00e1rea em fase de reflorestamento do Morro da Formiga, bairro da Tijuca, Rio de Janeiro, durante um ano e meio. A avalia\u00e7\u00e3o foi feita por meio da an\u00e1lise palinol\u00f3gica de amostras de mel e de p\u00f3len ap\u00edcola\/bolotas refletindo a problem\u00e1tica na revegeta\u00e7\u00e3o de \u00e1reas degradadas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Introdu\u00e7\u00e3o<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">As atividades destruidoras do homem sobre a natureza levou diversas \u00e1reas urbanas a tal ponto que a qualidade de vida saud\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o caiu drasticamente. Isto se fez sentir principalmente no abastecimento de \u00e1gua pot\u00e1vel e saneamento. Extensas \u00e1reas ao redor de \u00e1reas urbanas densamente constru\u00eddas foram praticamente destitu\u00eddas de vegeta\u00e7\u00e3o levando inclusive \u00e0 ocorr\u00eancia de deslizamentos de terra e casas e de mortes. Amplos estudos de avalia\u00e7\u00e3o ambiental foram e est\u00e3o sendo realizados em fun\u00e7\u00e3o destes problemas (Dean 1996).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">A cidade do Rio de Janeiro abrange a maior \u00e1rea urbana de Mata Atl\u00e2ntica tropical (Santana et al. 2015). A agress\u00e3o a este ecossistema \u00e9 constante, principalmente no entrono de comunidades chamadas favelas (Lago &amp; Ribeiro 2001). Estas \u00e1reas ficam localizadas em sua maioria sobre as encostas dos morros da cidade, espremidas entre os centros habitacionais \u201cmais nobres\u201d, a mata e os capinzais. Abrangem uma popula\u00e7\u00e3o altamente condensada, cuja press\u00e3o sobre o ambiente \u00e9 extrema e constante. Para amenizar esta situa\u00e7\u00e3o, bem como poder melhorar o controle sobre as \u00e1guas e os deslizamentos, a Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro lan\u00e7ou em 1987 um grande projeto, atualmente sob a denomina\u00e7\u00e3o de \u201cMutir\u00e3o Reflorestamento\u201d (Moraes et al. 2006). Teve efeitos ben\u00e9ficos excelentes em diversas \u00e1reas desta megal\u00f3pole. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Uma das t\u00e1ticas de proporcionar a implanta\u00e7\u00e3o de vegeta\u00e7\u00e3o arb\u00f3rea e arbustiva nestas \u00e1reas degradadas foi a de introduzir as abelhas nativas, chamadas mel\u00edponas. Estas abelhas s\u00e3o respons\u00e1veis pela poliniza\u00e7\u00e3o de 40 a 90% das esp\u00e9cies arb\u00f3reas no Brasil (Kerr et al. 1996). Atuam como polinizadoras de esp\u00e9cies vegetais nativas, favorecendo o aumento de sementes e em posteriormente novas mudas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">A fim de rastrear as atividades, prefer\u00eancias e potencialidade destas abelhas, foram aplicadas t\u00e9cnicas de Palinologia. Atrav\u00e9s destas \u00e9 poss\u00edvel obter o reconhecimento de plantas visitadas pelas abelhas por meio da morfologia dos respectivos gr\u00e3os de p\u00f3len, os quais elas carregam para os seus ninhos como fonte de alimento ou, involuntariamente, por meio de contato. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">O presente estudo pretende avaliar o potencial polinizador de abelhas nativas sem ferr\u00e3o em uma \u00e1rea degradada em fase de reflorestamento na cidade do Rio de Janeiro, atrav\u00e9s da an\u00e1lise palinol\u00f3gica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Material e M\u00e9todos.<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Uma \u00e1rea restrita em processo de reflorestamento no Morro da Formiga, bairro da Tijuca, foi acompanhada por um ano e meio. A regi\u00e3o fica adjacente a uma comunidade de baixa renda, denominada Morro da Formiga (Figura 1). <a href=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Foto-01-Atividade-polinizadora.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-2481\" src=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Foto-01-Atividade-polinizadora.jpg\" alt=\"Foto-01-Atividade-polinizadora\" width=\"562\" height=\"679\" srcset=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Foto-01-Atividade-polinizadora.jpg 562w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Foto-01-Atividade-polinizadora-248x300.jpg 248w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Foto-01-Atividade-polinizadora-150x181.jpg 150w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Foto-01-Atividade-polinizadora-414x500.jpg 414w\" sizes=\"(max-width: 562px) 100vw, 562px\" \/><\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">O plantio envolveu esp\u00e9cies vegetais dos estratos arb\u00f3reos, subarb\u00f3reo e arbustivo. Dentro da \u00e1rea reflorestada foi montado um pequeno api\u00e1rio nas coordenadas 22\u00b056&#8217;37.01&#8243;S e 43\u00b014&#8217;31.67&#8243;W com abelhas nativas sem ferr\u00e3o das esp\u00e9cies ira\u00ed (Nannotrigona testaceicornis), jata\u00ed (Tetragonisca angustula) e manda\u00e7aia (Melipona quadrifasciata anthidioides). As caixas de abelhas foram inspecionadas mensalmente e amostras de mel e de p\u00f3len ap\u00edcola (bolotas\/cargas de p\u00f3len) coletadas. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">A an\u00e1lise palinol\u00f3gica deste material seguiu o m\u00e9todo laboratorial padr\u00e3o europeu de preparo das amostras, sem o uso de acet\u00f3lise (Louveaux et al. 1978). Amostras de mel foram dilu\u00eddas em \u00e1gua com o dobro de seu volume, centrifugadas, impregnadas com \u00e1gua\/glicerina 1:1 por meia hora, centrifugadas e o sedimento foi montado sobre l\u00e2minas de microscopia com gelatina glicerinada vedando-se com parafina (Barth 1989). A contagem e a identifica\u00e7\u00e3o dos gr\u00e3os de p\u00f3len abrangeu 300 ou mais gr\u00e3os de p\u00f3len, distribu\u00eddos segundo as classes de frequ\u00eancia de Zander, considerando a sub- e super-representa\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies florais e o corte de 45% para caracterizar uma amostra monofloral (Barth 1989).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">As amostras de p\u00f3len ap\u00edcola foram extra\u00eddas com etanol a 70% por uma ou duas vezes, centrifugadas, impregnadas com \u00e1gua\/glicerina 1:1 por meia hora, centrifugadas e o sedimento foi montado diretamente sobre l\u00e2minas de microscopia vedando-se com esmalte de unha (Barth et al. 2010). A contagem e a identifica\u00e7\u00e3o abrangeu 500 ou mais gr\u00e3os de p\u00f3len. Considera-se uma amostra ser monofloral ocorrendo os gr\u00e3os de p\u00f3len de um \u00fanico t\u00e1xon acima de 90% ou ent\u00e3o acima de 60% caso n\u00e3o houver p\u00f3len acess\u00f3rio (15 a 45%) (Barth et al. 2010).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Foram registrados para ambas as prepara\u00e7\u00f5es (mel e p\u00f3len ap\u00edcola) outros elementos figurados que constavam do sedimento, os quais poderiam dar informa\u00e7\u00f5es adicionais \u00e0s atividades das abelhas. A identifica\u00e7\u00e3o dos tipos pol\u00ednicos observados nas amostras coletadas fez uso da cole\u00e7\u00e3o de refer\u00eancia do laborat\u00f3rio (material n\u00e3o acetolisado) e de cat\u00e1logos de refer\u00eancia (Barth 1989, Roubik &amp; Moreno 1991).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Resultados<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Durante um ano e meio (2015\/16) foram coletadas 20 amostras de mel sendo oito referentes \u00e0 abelha ira\u00ed, nove \u00e0 abelha jata\u00ed e tr\u00eas \u00e0 abelha manda\u00e7aia. No mesmo per\u00edodo foram coletadas 21 amostras de p\u00f3len ap\u00edcola, sendo seis da abelha ira\u00ed, nove da jata\u00ed e seis da manda\u00e7aia. Somente no m\u00eas de novembro de ambos os anos de coleta foram obtidas amostras simult\u00e2neas de mel e p\u00f3len ap\u00edcola das tr\u00eas esp\u00e9cies de abelhas. Em alguns meses foi imposs\u00edvel realizar coletas por raz\u00f5es ambientais e populacionais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b><a href=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Foto-02-Atividade-polinizadora.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-large wp-image-2482\" src=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Foto-02-Atividade-polinizadora-1024x591.jpg\" alt=\"Foto-02-Atividade-polinizadora\" width=\"1024\" height=\"591\" srcset=\"https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Foto-02-Atividade-polinizadora-1024x591.jpg 1024w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Foto-02-Atividade-polinizadora-300x173.jpg 300w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Foto-02-Atividade-polinizadora-150x87.jpg 150w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Foto-02-Atividade-polinizadora-500x289.jpg 500w, https:\/\/apacame.org.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Foto-02-Atividade-polinizadora.jpg 1180w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a>Mel (Figuras 2 e 3)<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Das 20 amostras de mel analisadas, somente seis eram monoflorais, isto \u00e9, apresentavam gr\u00e3os de p\u00f3len de um \u00fanico t\u00e1xon acima de 45% denominado predominante. Enquadram-se nesta categoria as amostras coletadas pela abelha ira\u00ed nos meses de mar\u00e7o de Gochnatia (cambar\u00e1), da jata\u00ed em novembro do tipo Calycophyllum (pau mulato) e da manda\u00e7aia de Anadenanthera colubrina (angico branco) em novembro e dezembro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Ocorreram somente tr\u00eas amostras biflorais. Da abelha jata\u00ed uma amostra era caracterizada por p\u00f3len do tipo Apiaceae e Schizolobium parahyba, a outra por Rubiaceae e Arecaceae. A abelha manda\u00e7aia produziu uma amostra de mel com maior contribui\u00e7\u00e3o de Myrcia e Piptadenia gonoacantha.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">As demais 11 amostras coletadas eram totalmente at\u00edpicas, dominadas por p\u00f3len anem\u00f3filo e de fartos e diversos tipos de esporos de fungos. N\u00e3o podem ser consideradas heteroflorais devido a uma m\u00ednima quantidade de n\u00e9ctar coletado.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>P\u00f3len (Figuras 2 e 3)<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Das 21 amostras de p\u00f3len ap\u00edcola analisadas, somente cinco eram monoflorais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Enquadram-se nesta categoria as amostras coletadas pela abelha ira\u00ed no m\u00eas de novembro Struthanthus (parasita, erva de passarinho), pela jata\u00ed em novembro e janeiro de Syagrus romanzoffiana (palmeira, geriv\u00e1) e Trema micrantha (arvoreta, grandiuva). A abelha manda\u00e7aia em novembro e dezembro coletou p\u00f3len de Myrcia (arvoreta, murta) e de Struthantus respectivamente. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Amostras biflorais eram as mais freq\u00fcentes. A abelha ira\u00ed coletou p\u00f3len em janeiro e fevereiro de Schinus terebinthifolius (aroeira) e de uma esp\u00e9cie n\u00e3o identificada, em junho e julho de Serjania (timb\u00f3) e Syagrus romanzoffiana. A abelha jata\u00ed apresentou coletas muito variadas, sendo de Alchornea triplinervia (caixeta, tanheiro) e de uma esp\u00e9cie desconhecida em novembro; de Cecropia (emba\u00faba) e Trema micrantha em dezembro; Schizolobium (sibipiruna) e Trema micrantha em fevereiro; Poaceae e Cecropia em junho. As biflorais da abelha manda\u00e7aia dataram de setembro, sendo de Mimosa caesalpiniifolia (sabi\u00e1) e Anadenanthera colubrina (angico branco), e de fevereiro de uma esp\u00e9cie desconhecida e Schinus terebinthifolius.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Tr\u00eas amostras eram heteroflorais coletadas nos meses de junho, julho e outubro. Como elementos figurados estranhos constantes nas amostras de p\u00f3len constavam, al\u00e9m de leveduras, esporos de fungos observados nas amostras coletadas pela abelha ira\u00ed (Figura 3)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Discuss\u00e3o<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">As 41 amostras analisadas e coletadas pelas tr\u00eas esp\u00e9cies de abelhas sem ferr\u00e3o representaram atividades bastante vari\u00e1veis entre si.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Mel<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Das 20 amostras de mel coletadas, seis eram monoflorais, tr\u00eas biflorais e 11 at\u00edpicas. Nenhuma das seis amostras monoflorais produzidas pelas tr\u00eas esp\u00e9cies de abelhas nativas teve a mesma origem floral. Na \u00e9poca de ver\u00e3o a abelha ira\u00ed destacou-se pela visita\u00e7\u00e3o \u00e0 florada do angico e na primavera pelo cambar\u00e1, enquanto que a abelha manda\u00e7aia deu prefer\u00eancia \u00e0s murtas ao longo do ano. A abelha jata\u00ed n\u00e3o produziu mel monofloral. Os m\u00e9is biflorais eram todos pobres em gr\u00e3os de p\u00f3len, ricos em p\u00f3len anem\u00f3filo e esporos de fungos; assim, nem podem ser considerados como sendo de uma origem heterofloral. Tr\u00eas amostras de mel produzidos pela abelha ira\u00ed estavam inteiramente desprovidas de gr\u00e3os de p\u00f3len, contendo leveduras e outros esporos em quantidade, deixando a origem do produto desconhecida.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>P\u00f3len<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Das 21 amostras de p\u00f3len coletado, cinco eram monoflorais, dez biflorais e seis heteroflorais. As amostras monoflorais conseguiram ser obtidas somente na florada de primavera e in\u00edcio de ver\u00e3o. Igualmente as biflorais, mas tamb\u00e9m em junho e julho, meses de inverno. As heteroflorais ocorreram entre julho a dezembro<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Esp\u00e9cies de plantas com poliniza\u00e7\u00e3o anem\u00f3fila foram muito importantes para as abelhas jata\u00ed e manda\u00e7aia, compreendendo as Poaceae, Cecropia, Trema e Piper (caapeba). Esta \u00faltima esp\u00e9cie, arbustiva e freq\u00fcente em orla de matas \u00famidas, constituiu boa alternativa nos meses de outubro a dezembro, em \u00e9pocas mais secas e com baixas floradas. As Melastomataceae (quaresmeiras), de anteras poricidas, n\u00e3o estavam representadas significativamente. Entre as plantas nectar\u00edferas destacaram-se as palmeiras (Syagrus), aroeiras (Schinus), tamanqueira (Alchornea) e as ervas de passarinho (Struthanthus).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Mais recentemente, principalmente pelo incentivo dado \u00e0 Meliponicultura no Brasil, numerosas investiga\u00e7\u00f5es apresentaram resultados bastante informativos. Discutiu-se se as mel\u00edponas seriam generalistas ou fidelistas, chegando-se \u00e0 conclus\u00e3o de que, sendo o pasto farto, permaneceriam fi\u00e9is na coleta de n\u00e9ctar e p\u00f3len a uma esp\u00e9cie de planta. Com a escassez cada vez maior de fontes aliment\u00edcias, sejam de natureza ambiental ou provocada pela atividade humana, as abelhas ficaram obrigadas a recorrer a um maior n\u00famero de fontes fornecedoras de alimento, tornando-se generalistas. Assim, de modo semelhante, tem-se observado este comportamento tamb\u00e9m nas abelhas Apis (Ramalho et al. 2007, Wilms &amp; Wichers 1997).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Muito importante tamb\u00e9m \u00e9 o porte da vegeta\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel (Ramalho 2004). As pequenas jata\u00eds costumam visitar estratos mais baixos. No presente caso coletaram p\u00f3len de gram\u00edneas e caapeba, mas n\u00e3o conseguiram satisfazer sua demanda em n\u00e9ctar. As abelhas mais vigorosas como a ira\u00ed e a manda\u00e7aia alcan\u00e7aram estratos arbustivos (cambar\u00e1 e murtas) e arb\u00f3reos mais altos como angico, aroeira, palmeira e ervas de passarinho, principalmente na coleta de n\u00e9ctar, produzindo m\u00e9is monoflorais. A significativa presen\u00e7a de p\u00f3len anem\u00f3filo e esporos de fungos comprova a insufici\u00eancia do pasto ap\u00edcola para estas abelhas na \u00e1rea de Formiga, estando em acompanhamento de reflorestamento.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Abelhas africanizadas de g\u00eanero Apis n\u00e3o foram instaladas na \u00e1rea de Formiga. Elas apresentam grande interesse na coleta de n\u00e9ctar e p\u00f3len de plantas introduzidas (ex\u00f3ticas) como o eucalipto e as frutas c\u00edtricas (Barth &amp; Cor\u00e9-Guedes 1999). Esp\u00e9cies de plantas ex\u00f3ticas, cultivares e\/ou introduzidas na vegeta\u00e7\u00e3o nativa da Mata Atl\u00e2ntica, tal como o eucalipto e culturas de laranjeiras e hortali\u00e7as n\u00e3o ocorriam dentro da \u00e1rea em recupera\u00e7\u00e3o de vegeta\u00e7\u00e3o. Embora ocorressem nos arredores mais distantes, o seu p\u00f3len n\u00e3o foi detectado nas amostras de mel e p\u00f3len analisadas. Isto demonstra um desinteresse das abelhas nativas pelas plantas que n\u00e3o fazem parte do seu pasto habitual.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Considera\u00e7\u00f5es finais.<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Agindo como ass\u00edduas polinizadoras das plantas ap\u00edcolas citadas, as abelhas comprovaram que a representatividade e diversidade destas plantas identificadas durante um ano e meio de acompanhamento foram inferiores \u00e0s suas necessidades. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Conclui-se destas observa\u00e7\u00f5es que plantas anem\u00f3filas foram significativamente importantes para a subsist\u00eancia da pequena abelha jata\u00ed, enquanto que plantas nectar\u00edferas s\u00e3o alcan\u00e7adas com maior facilidade pelas abelhas mais robustas como a ira\u00ed e a manda\u00e7aia. Sendo assim, o replantio em \u00e1reas devastadas deve comportar estes dois grupos de plantas, pois, al\u00e9m de ocuparem todos os n\u00edveis estruturais de uma vegeta\u00e7\u00e3o, fornecem p\u00f3len durante o ano todo para a manuten\u00e7\u00e3o das col\u00f4nias de abelhas sem ferr\u00e3o, garantindo a poliniza\u00e7\u00e3o, propaga\u00e7\u00e3o e recupera\u00e7\u00e3o vegetal, no caso o bioma Mata Atl\u00e2ntica. De outro lado, visando \u00e0 poliniza\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies pertencentes a diferentes estratos vegetais, ser\u00e1 necess\u00e1rio introduzir v\u00e1rias esp\u00e9cies de abelhas sem ferr\u00e3o para garantir efici\u00eancia no reflorestamento de uma \u00e1rea degradada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">N\u00e3o houve coletas em oito de 19 meses por v\u00e1rias raz\u00f5es. Uma vez por falta de produtos estocados nos ninhos, mostrando de um lado a car\u00eancia alimentar existente na \u00e1rea e de outro lado o dif\u00edcil acesso \u00e0s colm\u00e9ias devido \u00e0 viol\u00eancia urbana existente na regi\u00e3o. A \u00e1rea durante o per\u00edodo de coleta estava carente em fontes alimentares, principalmente para a abelha jata\u00ed que n\u00e3o conseguiu produzir mel monofloral e coletou muito p\u00f3len anem\u00f3filo. Pela quantidade de esp\u00e9cies vegetais visitadas, a a\u00e7\u00e3o polinizadora das tr\u00eas esp\u00e9cies de abelhas foi eficiente neste curto espa\u00e7o de tempo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Espera-se que este quadro possa mudar e a recupera\u00e7\u00e3o da \u00e1rea degrada de Formiga possa prosseguir a crescer um dia em colabora\u00e7\u00e3o com a popula\u00e7\u00e3o da comunidade, de nossas abelhas e de esp\u00e9cies vegetais nativas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Agradecimentos<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Apoio financeiro agradecemos ao CNPq, \u00e0 CAPES e Prefeitura do Rio de Janeiro.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\"><b>Refer\u00eancias<\/b><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Barth OM 1989. O p\u00f3len no mel brasileiro. Gr\u00e1fica Luxor. 150p.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Barth OM, Cor\u00e9-Guedes J. 1999. Caracteriza\u00e7\u00e3o de m\u00e9is de laranjeiras procedentes dos estados do Rio de Janeiro e de S\u00e3o Paulo, por meio da an\u00e1lise pol\u00ednica. LECTA, Bragan\u00e7a Paulista 17: 27-35.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Barth OM, Freitas AS, Oliveira, ES, Silva RA, Maester FM, Andrella RRS, Cardozo GMBQ. 2010. Evaluation of the botanical origin of commercial dry bee pollen load batches using pollen analysis: a proposal for technical standardization. Anais da Academia Brasileira de Ci\u00eancias 82 (4): 893-902.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Dean, W. 1996. A ferro e fogo: a hist\u00f3ria e a devasta\u00e7\u00e3o da Mata Atl\u00e2ntica brasileira. S\u00e3o Paulo: Cia. das Letras, 484 p.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Kerr, W.E., Carvalho, G.A., Nascimento, V.A. 1996. Abelha Uru\u00e7u: Biologia, Manejo e Conserva\u00e7\u00e3o, Belo Horizonte, MG: Acanga\u00fa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Lago, L.C., Ribeiro, L.C.Q. 2001. A divis\u00e3o favela-bairro no espa\u00e7o social do Rio de Janeiro. Cadernos Metr\u00f3pole, 5:29-46.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Louveaux J, Maurizio A, Vorwohl G. 1978. Methods of Melissopalynology. Bee Word, 59, 139-157.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Moraes D, Assump\u00e7\u00e3o JM, Pereira TS, Luchian C. 2006. Manual t\u00e9cnico para a restaura\u00e7\u00e3o de \u00e1reas degradadas no Estado do Rio de Janeiro. Instituto de Pesquisas Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro. 80p.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Ramalho M. 2004. Stingless bees and mass flowering trees in the canopy of Atlantic Forest: a tight relationship. Acta bot. bras. 18(1): 37-47.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Ramalho M, Silva MD, Carvalho CAL. 2007. Din\u00e2mica de Uso de Fontes de P\u00f3len por Melipona scutellaris Latreille (Hymenoptera: Apidae): Uma An\u00e1lise Comparativa com Apis mellifera L. (Hymenoptera: Apidae), no Dom\u00ednio Tropical Atl\u00e2ntico. Neotropical Entomology 36(1): 38-45.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Roubik, D. W., Moreno, J. E. P. 1991. Pollen and spores of Barro Colorado Island. Monographs in Systematics Botany from the Missouri Botanical Garden, v. 36, 270p.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Santana, C.A.A., Freitas, W.K., Magalh\u00e3es, L.M.S. 2015. Estrutura e similaridade em florestas urbanas na regi\u00e3o metropolitana do Rio de Janeiro. Interci\u00eancia, 40(7):479-486.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Wilms W, Wiechers B. 1997. Floral resource partitioning between native Melipona bees and introduced Africanized honey bee in the Brazilian Atlantic rain forest. Apidologie 28: 339-355.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atividade polinizadora de abelhas sem ferr\u00e3o em \u00e1rea urbana de reflorestamento no Rio de Janeiro. 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