Homenagem


PRESIDENTE SEM PASTA, PRESIDENTE DE HONRA PERMANENTE DA CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE APICULTURA.

Lionel Segui Gonçalves – Professor Titular aposentado da USP-Ribeirão Preto-SP, Pesquisador Visitante Voluntário da UFERSA – Mossoró – RN e Presidente da ONG “BEE OR NOT TO BE”.

Com o título simbólico acima, rendo homenagem póstuma a um grande brasileiro, defensor das abelhas e do meio ambiente. Refiro-me ao caro amigo falecido em 20/09/2018, Dr. CONSTANTINO ZARA FILHO, comerciante, advogado, apicultor, educador, associativista, presidente da APACAME, membro da ONG “BEE OR NOT TO BE”, grande incentivador e defensor da apicultura nacional e um dos mais atuantes conselheiros da CBA – Confederação Brasileira de Apicultura. Como ex-presidente da Comissão Técnico-Científica da CBA por mais de 15 anos, sinto-me qualificado e muito à vontade para dar testemunho das atividades desempenhadas no país e exterior pelo Dr. Constantino em prol da apicultura brasileira.

APIMONDIA 2015 - Coreia do sul

APIMONDIA 2015 – Coreia do sul

Dentro do associativismo e, em particular, nas lides apícolas relacionadas à CBA, graças à sua perspicácia, firme determinação, ponderação e sapiência, deixou legado histórico às gerações que sucedem. Atuou como conselheiro fiscal e compartilhou sua experiência jurídica junto a distintas administrações e diretorias da entidade, sempre em favor de sua organização e desenvolvimento, do engajamento dos apicultores e da harmonia nas gestões. E foi com esse espírito correto e conciliador que o Dr. Constantino “apagou muitos incêndios” e “colocou ordem na casa” em ocasiões diversas e, marcadamente, nos momentos eleitorais, de renovação das diretorias da CBA.

Destaco importante intervenção do Dr. Constantino, por ocasião da penúltima eleição da diretoria da CBA, realizada em 2014, em Belém do Pará, em Assembleia Geral durante o Congresso Brasileiro de Apicultura. Nessa ocasião, a CBA – a entidade máxima da apicultura brasileira – devido a um ato falho e irresponsável de seu então Presidente, encontrava-se estatutariamente registrada em cartório como membro de uma nova entidade, a “Associação ABELHA”, e, portanto, figurava como parceira de pessoas físicas e jurídicas vinculadas a empresas multinacionais, fabricantes de pesticidas nocivos às abelhas. Esse ato inconcebível fora registrado em cartório pelo então presidente da CBA, que agiu sem consultar os demais membros da Diretoria da CBA, Conselho Fiscal, Diretoria Científica (representada na época pela minha pessoa) e membros das distintas Federações de Apicultores. A afronta causou mal-estar e indignação geral, de norte a sul do país, e graças aos presidentes das Federações, pesquisadores, conselheiros e, principalmente, à ação e orientação irretocável e determinada do Dr. Constantino Zara Filho, o ato foi revogado mediante votação em Assembleia Geral, evento que se tornou histórico para a apicultura nacional. Foi sob o seu protagonismo que se conseguiu reverter a situação: a CBA livrou-se oficialmente da repugnante situação e elegeu nova diretoria totalmente desvinculada de empresas com interesses sabidamente diversos daqueles dos apicultores. Hoje, a CBA, embora ainda apresente dificuldades financeiras, segue livremente, com objetivos claros, oferecendo na medida das possibilidades, sua contribuição para o desenvolvimento apícola nacional.

Constantino Zara Filho foi homenageado pela CBA no 18o Congresso Brasileiro de Apicultura.

Constantino Zara Filho foi homenageado pela CBA no 18o Congresso Brasileiro de Apicultura.

Sou testemunha, portanto, de que nosso homenageado, sem nunca ter ocupado cargo de diretoria de nossa entidade máxima, manteve ao longo do tempo dedicação zelosa e escrupulosa pelo futuro da CBA, que sempre o qualificaram junto a seus pares como merecedor do maior respeito pelas suas ponderações. Em diferentes oportunidades de renovação da diretoria, Dr. Constantino declinou o convite para se candidatar a Presidente da CBA, alegando seu compromisso imutável com a APACAME, mas nunca lhe negou esforço, competência, contribuições para que bons resultados fossem alcançados, a despeito das inevitáveis tensões e impasses, como o ocorrido em Belém-PA. Suas atuações como Conselheiro, marcadas por seriedade e serenidade, dignidade e responsabilidade, eram na prática a de quem agia como se fora um Presidente sem Pasta da CBA. No meu entender, por seus conselhos, proposições e ações pela apicultura brasileira, dentro e fora da CBA, ao longo de toda uma vida, considero-o como merecedor do título que ora proponho, o de “Presidente Permanente de Honra da CBA”.

Em favor dessa proposta, coleciono argumentos e compartilho a seguir alguns episódios da história da apicultura e da CBA. A CBA foi fundada curiosamente e extraoficialmente em Maryland-USA por um grupo de brasileiros presentes no Congresso da Apimondia de 1967 e que necessitavam de uma representação oficial do Brasil naquele evento apícola internacional no qual estavam presentes, o famoso apicultor gaúcho “Tio Hugo” (Hugo Muxfeld), o Prof. Warwick E. Kerr e eu Lionel S. Gonçalves – ocasião em que apresentava meu primeiro trabalho em congresso internacional. Oficialmente, a CBA foi criada logo em seguida, em 1968, no Brasil, em Porto Alegre RS. Dois anos mais tarde, em 1970, face aos problemas relacionados às abelhas africanizadas no país e à falta de conhecimento sobre o manejo e biologia dessas abelhas, realizou-se o 1o Congresso Brasileiro de Apicultura em Florianópolis – SC. Nesse mesmo ano, concluí meu doutorado na USP de Ribeirão Preto-SP, sob a orientação do geneticista Prof. Dr. Warwick Estevam Kerr, introdutor das abelhas africanas (Apis mellifera scutellata) no Brasil, tendo como tema principal genética e melhoramento de abelhas africanizadas. Em 1979, um grupo de pessoas interessadas em apicultura fundaram em São Paulo-SP a APACAME – Associação dos Apicultores Paulistas Criadores de Abelhas Melíficas Europeias, com preferência pelas abelhas Apis mellifera europeias, devido principalmente à influência de um grego, tido como técnico apícola, Nikolaos A. Mitsiotis. Poucos anos mais tarde, membros da APACAME decidiram ampliar os objetivos iniciais da Associação e adotaram outras abelhas Apis mellifera, inclusive as híbridas africanizadas, passando a entidade a ser liderada pelo apicultor e advogado, Dr. Constantino Zara Filho, ocasião em que tive o prazer de conhecê-lo em reuniões sobre apicultura no estado de São Paulo.

Face a dedicadíssima atuação desse abnegado membro da APACAME, na qualidade de Presidente eleito por seus pares, ocorreram sucessivas reconduções ao cargo máximo da entidade, o que se sucedeu por aclamação, por 38 anos, e até recentemente em 2018 quando todos fomos surpreendidos com a inesperada notícia do falecimento do grande líder apícola brasileiro. Aquele que admirou, criou e defendeu as pequenas criaturas aladas, está agora nos braços do grande Criador. Mas nesse intervalo, segundo registros documentados, foi extremamente ativo como associativista, tendo organizado e ministrado mais de 170 cursos, buscando cativar novos membros a se dedicarem às abelhas e à apicultura e, anotem o detalhe, ensinando inclusive a metodologia de manejo com as famosas abelhas africanizadas, outrora rotuladas como “killer bees”, hoje mais domesticadas e manipuláveis. Dr. Constantino promovia o engajamento e a produtividade, inspirava a criação de abelhas, como hobby ou profissão, graças a seus profundos conhecimentos apícolas e dotes educacionais.

Na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, a convite do Deputado estadual Pe. Afonso Lobato, juntos argumentamos, advogamos e pleiteamos a proibição das pulverizações aéreas das lavouras com agrotóxicos.

Na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, a convite do Deputado estadual Pe. Afonso
Lobato, juntos argumentamos, advogamos e pleiteamos a proibição das pulverizações aéreas
das lavouras com agrotóxicos.

Ainda como líder apícola associativista, como presidente da APACAME e representando os apicultores paulistas, (na ocasião ainda não existia a Federação Paulista de Apicultores), tive a oportunidade de aproximar-me do Dr. Constantino que, ao lado do Dr. Walter Moreti, na ocasião vice-presidente da APACAME, foram convidados pelo então presidente da CBA, Sr. Helmuth Wiese, para compor juntamente comigo, como então presidente da Comissão Científica da CBA, a Comissão Organizadora do XXXII Congresso Internacional de Apicultura da APIMONDIA, realizado no Rio de Janeiro em 1989. Trabalhamos como coordenador técnico-cientifico, responsável pela programação científica do congresso da Apimondia no Brasil, ao lado do Dr. Constantino e do Dr. Moreti na qualidade de responsáveis pela coordenação financeira daquele evento. Foi grande o desafio, e excelente o aprendizado. Conseguimos realizar o referido Congresso e o Brasil tornou-se mais conhecido no mundo apícola internacional. Foi nessa oportunidade de trabalho e convivência que tive o prazer de conhecer um pouco mais da face empreendedora e organizadora do Dr. Constantino, e passei a admirá-lo ainda mais, tendo nos tornado amigos por longos anos.

Como defensor das abelhas contra o uso indiscriminado dos pesticidas, teve ele também atuação marcante e amplamente reconhecida nos meios apícolas, educacionais, políticos e científicos. Por ocasião da nossa iniciativa na criação da ONG “BEE OR NOT TO BE“, com o objetivo de proteger as abelhas e o meio ambiente, Dr. Constantino atendeu prontamente ao nosso convite e esteve sempre atuante.

Comungando do mesmo amor às abelhas e respeito aos apicultores, atuamos muitas vezes em parceira. As longas conversas, regadas com boas doses de idealismo e outras tantas de dura realidade, nos faziam avançar na direção da vontade política de salvar as abelhas de suas anunciadas sentenças de morte. Lembro que estivemos juntos na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, a convite do Deputado estadual Pe. Afonso Lobato, e que juntos argumentamos, advogamos e pleiteamos a proibição das pulverizações aéreas das lavouras com agrotóxicos – prática irracional e inaceitável frente ao conhecimento de que hoje dispomos acerca da deriva e dos danos persistentes ao solo, à água e, consequentemente, a todo ser vivo. Muito mais que abelhas, juntos argumentamos pela vida.

Dr. Constantino foi também um dos criadores do lema da APACAME “Abelhas a serviço da Agricultura“ e suas palestras em simpósios e seminários, proferidas em defesa das abelhas e sob os mais variados temas apícolas, sempre cativaram e mobilizaram os participantes. Também era sua qualidade ouvir as pessoas, e a partir da escuta atenta engendrava soluções. Inúmeras vezes em que estivemos juntos nos Congressos brasileiros e internacionais jamais observei um Constantino passivo sem novas ideias ou propostas de incentivo às causas apícolas.

Finalmente, destaco ainda sua maravilhosa contribuição na divulgação de eventos apícolas e incentivo aos apicultores a se manterem atualizados, a participar de atividades, cursos, congressos. Juntamente com sua querida e dedicada esposa Cleide Zara, que com muita competência sempre coordenou as famosas “Caravanas da APACAME”, reuniam numerosos participantes, que chegavam sempre devidamente uniformizados e marcavam presença nas edições do Congresso Brasileiro de Apicultura e Congressos Internacionais da Apimondia, Filapi etc. Com o tempo, a iniciativa perseverante do Dr. Constantino tornou-se tradição na rotina de importantes eventos nacionais e internacionais, demonstrando a força do associativismo apícola brasileiro. Fui testemunha da presença festiva e organizada das várias dezenas de pessoas agrupadas, vestindo as coloridas camisetas da APACAME, muitos portando não apenas as bandeiras do Brasil, mas carregando consigo especial alegria pela oportunidade de desfrutar desses ambientes de confraternização e intercâmbio de conhecimentos, produtos e cultura apícola.

Como pesquisador, confesso minha satisfação de ter podido participar dos Congressos da APIMONDIA – Federação Internacional que congrega apicultores e pesquisadores de mais de 110 países no mundo – e poder compartilhar resultados de algumas de nossas pesquisas desenvolvidas no Brasil. Em 2017, no último congresso da Apimondia, em Istambul-Turquia, fui agraciado com o honroso título de “Membro Honorário da APIMONDIA” em face de minhas contribuições técnico-cientificas em 45 anos de trabalho com as abelhas africanizadas e participação em mais de 15 congressos internacionais da Apimondia. E é assim, na qualidade de assíduo participante da Apimondia, que ofereço meu testemunho acerca da indescritível sensação de felicidade e orgulho que senti, ao participar das cerimônias de abertura e/ou encerramento dos Congressos Internacionais da APIMONDIA, quando a numerosa e vibrante “CARAVANA da APACAME” se fazia presente, bonita e organizada, representando e elevando o BRASIL nesses eventos apícolas ao redor do mundo.

Sua passagem causou-nos profunda dor e sua ausência se fará sentir. Somo todos gratos ao casal Zara pelas memoráveis viagens a congressos, e em especial ao nosso querido Dr. Constantino Zara Filho, que não só admirava as abelhas, mas zelava, como poucos, pela apicultura e pelos muitos apicultores desse nosso Brasil. Tamanho desvelo e respeito é legado ímpar, a servir de inspiração e exemplo.