Artigo


Manutenção e multiplicação das abelhas nativas, algumas questões a ponderar.

Professor Harold Brand, Biólogo e Meliponicultor – profharoldbrand@gmail.com

A prática e a difusão das novas técnicas de manejo entre os meliponicultores, tais como aquecimento nas colméias, multiplicação artificial, complemento alimentar, tem se traduzido no aumento do número de colméias.

Zangão de uruçu. Deve enfrentar as adversidades do mundo exterior da colméia, para amadurecer sexualmente

Zangão de uruçu. Deve enfrentar as adversidades do mundo exterior da colméia, para amadurecer
sexualmente

E esse sucesso dos criadores tem diminuído o interesse na difícil tarefa de procura e retirada das famílias do seu ambiente natural.

O efeito benéfico do controle da temperatura no ambiente interno da colméia é perceptível na produção do mel, bem como o aumento na população. Fato que é facilmente explicável, pois a abelha como “máquina biológica” tem o seu metabolismo controlado por reações enzimáticas cuja velocidade é diretamente proporcional a temperatura (lei Bioquimica de Wanthoffi ).

Nota: O custo material para a implantação do aquecimento artificial é relativamente baixo e fácil de confeccionar. Para 50 caixas o custo aproximado de 750 reais; gastos com o termostato, resistores, fios, tomadas, etc., uma média de 15 reais por caixa.

Nota: Os pesquisadores russos desenvolveram técnicas chamadas de “método mel expresso “que visa acrescentar ou enriquecer o mel com substância de interesse nutricional ou medicinal através do metabolismo das abelhas (Apis sp).Na foto o mel expresso obtido pela metabolização com rutina e triptófano pelas nossas abelhas manduri e uruçu. Esse mel enriquecido por esse processo é muito interessante para pessoas idosas, pois aumenta a permeabilidade celular.

Nota: Os pesquisadores russos desenvolveram técnicas chamadas de “método mel expresso
“que visa acrescentar ou enriquecer o mel com substância de interesse nutricional ou medicinal
através do metabolismo das abelhas (Apis sp).Na foto o mel expresso obtido pela metabolização
com rutina e triptófano pelas nossas abelhas manduri e uruçu. Esse mel enriquecido por esse
processo é muito interessante para pessoas idosas, pois aumenta a permeabilidade celular.

O aperfeiçoamento das técnicas de manejo de divisão quando bem aplicadas, imitando parcialmente a enxameação natural, que se processa em etapas temporais progressivas, permitem ao meliponicultor boas probabilidades de sucesso no aumento do número de famílias.

No sul do país, o exemplo bem-sucedido é o da uruçu nordestina. Família fácil de manipular, produtora de saboroso mel, abelhas grandes, população numerosa, eficiente polinizadora de cultivares, muita apta no preparo do mel medicinal conhecido na literatura russa como o método mel expresso. A sua criação fora das áreas endêmicas não gera impacto ambiental, pois apenas sobrevive nos meliponários sob os cuidados dos meliponicultores.

As mesmas técnicas podem ser facilmente aplicadas as abelhas nativas no lugar da ( Apis sp), com inúmeras vantagens. O processo também visa alimentar a abelha entre as safras e adicionar substâncias para melhorar a produtividade e a sanidade da colméia.

Entretanto, apesar da melhoria das técnicas de manipulação, ainda são notórias as dificuldades dos Meliponicultores no manejo e multiplicação de algumas espécies exóticas para a região e mesmo para algumas espécies endêmicas.

Foto de disco de cria anormal. Disco pequeno, irregular e coberto de cera escura, os alvéolos abertos com o alimento larval seco (esbranquiçados), como na foto. São indicativos de ausência de rainha fisiogastrica.

Foto de disco de cria anormal. Disco pequeno,
irregular e coberto de cera escura, os
alvéolos abertos com o alimento larval
seco (esbranquiçados), como na foto.
São indicativos de ausência de rainha
fisiogastrica.

Nesses casos, qual seria a causa ou as causas do insucesso? E como estabelecer as condições necessárias para manter essas populações sustentáveis?

Baseado em nossas experiências e em trabalhos publicados por pesquisadores, enumeramos algumas questões.

A necessidade de 44 colméias da mesma espécie.

Alguns pesquisadores estabelecem a necessidade de 44 colméias de abelhas da mesma espécie no miliponário ou nas suas proximidades, baseado no modelo matemático de combinações gênicas dos fatores genéticos determinantes da sexualidade das abelhas.

Na prática do dia a dia o que pesa contra esse modelo:

a) pequenas ilhas no litoral paranaense que se formaram há 5000 anos pela elevação das águas, isolando geneticamente pequeno número de famílias. Seus descendentes persistem até hoje, isolados geograficamente nestas ilhas em número reduzido.

b) os pesquisadores de campo e mesmo os mateiros com grande vivência das nossas matas, tem ciência da existência de abelhas nativas raras e muito isoladas mesmo nas suas regiões endêmicas. O número dessas famílias é significantemente bem menor na região que as 44 proposta.

c) Alguns meliponicultores têm no seu meliponário uma ou poucas famílias exóticas para observação ou curiosidade e muitos delas permanecem ativas durante muitos anos, (o que subentende muitas trocas de rainhas com sucesso no decorrer desse tempo).

Dois exemplos, em nosso meliponário uma família de uruçu cinzenta permanece ativa por mais de onze anos e uma marmelada por mais de sete anos.

Todas essas questões põem em discussão a necessidade das 44 famílias da mesma espécie no mesmo meliponário. Porém, não resta a menor dúvida que uma maior quantidade de colméias de abelhas da mesma espécie de procedência diferentes, aumenta a variabilidade do estoque gênico.

O amadurecimento da sexualidade do zangāo

O zangāo jovem dentro da colméia exerce uma série de atividades semelhante ás operarias, mas o seu amadurecimento sexual tem como pré-requisito, atividade externa. O fato é que nos meses frios o tempo de sobrevivência fora da colméia é problemático. É uma forma de seleção natural, que afeta a sua oportunidade de fecundação, podendo selar a sorte do enxame na fase da substituição da rainha fisiogastrica.

Essa etologia do zangão sugere que as divisões com mais probabilidade de sucesso devem ser realizadas nas estações mais quentes.

Protoandria e a protogenia

A protoandria e a protogenia são fenômenos que ocorrem em muitos insetos e mesmo em alguns vegetais. Basicamente consistem na formação em tempos diferentes de indivíduos de sexo masculino as do feminino. Para nossas abelhas nativas essa hipótese já foi levantada por alguns pesquisadores baseados na observação da não coincidência da maturidade sexual das rainhas e zangões na mesma colméia.

Meliponicultor mais atento já deve ter observado a periodicidade de aparecimento de muitas rainhas recém eclodidas em certas épocas e a escassez de zangões ou um grande número em outras épocas.

Nota: para explicação desses mecanismos a Epigenética vem em nosso auxilio, pois, esse novo ramo da genética trata das influências das condições ambientais sobre a manifestação dos genes. Ela trata dos diálogos entre as informações genéticas e ambientais. Explica que certos genes podem silenciar ou entrar em atividade induzidos por fatores ambientais. Assim uma fêmea duplamente heterozigota para os genes complementares para a indução da fertilidade, são silenciados por fatores como carência de alimentos, temperatura baixa, etc. E em lugar de uma rainha desenvolve uma operaria. Neste momento temporal da colméia não eclodirão rainhas embora a potencialidade genética esteja presente.

Esses mecanismos explicariam os insucessos na multiplicação, quando se tem apenas uma colméia ou um pequeno número delas. Quanto maior for o número de colméias maior a probabilidade da coincidência das duas janelas temporais, rainhas e zangões no mesmo miliponário.

Nas condições de ausência prolongada de rainha fisiogastrica, uma operária assume as funções. As demais operárias a reconhecem como rainha e impedem o desenvolvimento de uma nova rainha. Com o decorrer do tempo a falência da colméia estará decretada.

O Meliponicultor pode identificar essa condição ao observar os discos anormais de cria (vide a foto).

Como regra geral, o Meliponicultor deve ter em mente que quanto maior o número de colméias no meliponário da mesma espécie maior será a probabilidade de sucesso na multiplicação das suas colméias. Pois algumas devem se encontrar em fases ou estágios diferentes no momento da divisão.

Besouros cegos no fundo da caixa sobre o lixo. Eles animais percorrem esses locais realizando a função de faxineiro. São importantes para manutenção da sanidade da colméia.

Besouros cegos no fundo da caixa sobre o
lixo. Eles animais percorrem esses locais
realizando a função de faxineiro. São
importantes para manutenção da sanidade
da colméia.

Roubo e saque entre as abelhas

É notória a habilidade da abelha limão no saque de colméias muitas vezes com a destruição das mesmas.

Entretanto existem outros tipos de saque muito sutis, difíceis de serem observados, é o exemplo da Uruçu roubando o alimento larval da Bugia, decretando a falência da colméia em alguns meses.

Nas nossas abelhas sociais ocorrem vários graus de inclinação para a rapinagem, desde as profissionais do roubo até aquelas com simples oportunismo. Mesmo as abelhas com índole pacata quando submetidas a condições especiais como a redução das floradas aumenta a tendências para pilhagem.

O que nos leva àquele dito popular “a ocasião faz o ladrão”.

Na Grande Curitiba os meses de fevereiro e março são os meses mais suscetíveis aos saques, pois, as colméias estão muito populosas e ao mesmo tempo em que ocorre a diminuição do pasto floral.

Fatores ambientais

As abelhas da Tribo Meliponini como as Mandaçaias, as Uruçus são abelhas grandes, bastantes encorpadas, portanto muito visíveis pelos predadores. As aves como o pica-pau, anu, bem te vi, mantém essas abelhas no seu cardápio preferencial.

Alguma prevenção na construção do meliponário pode diminuir a perda das abelhas, como a duração da incidência direta do sol sobre as caixas no horário mais quente do dia.

Para o meliponicultor urbano é importante observar se nas proximidades a existência de iluminação artificial, pois essas abelhas partem cedo para o pasto “floral”, e podem manter essa atividade até anoitecer. A luz artificial na alvorada e no crepúsculo desorienta as abelhas, passando a voar em torno das lâmpadas, resultando a sua perda.

A idade das operárias

As características funcionais das operárias são as “janelas temporais”. Á medida que transcorre a sua breve vida assumem vocações diferentes.

As recém eclodidas cuidam da cria e outras atividades limitadas no berçário. As mais maduras percorrem todo interior do ninho, trabalham na construção, constroem os potes, cuidam da limpeza, manipulam os alimentos e finalmente partem para o mundo exterior como campeira.

Essa é a razão porque o meliponicultor ao dividir uma família deve ter cuidado para que ambas as colônias resultantes, recebam abelhas de várias faixas etárias. Para esperar um bom resultado é de bom alvitre acrescentar discos de crias nascentes 15 a 20 dias após a divisão na família sem a rainha fisiogastrica.Tudo indica que existe uma espécie de controle na colméia sobre as abelhas recém eclodidas. Na falta ou de um numero pequeno de operarias, as abelhas jovens saem do berçário, percorrem o interior da colméia e acabam se perdendo no mundo exterior.

Agrotóxicos

Algumas plantas (gênero Dioscorea sp) desenvolvem sapononinas como análogos de hormônios esteróides de insetos. Substâncias essas denominados de diosgenina, elas interferem no desenvolvimento dos insetos, tornando-os estéreis.

São componentes freqüentes dos agrotóxicos usados na pulverização dos cultivares e que também podem afetar drasticamente as abelhas durante o desenvolvimento embrionário.

Doenças causadas por fungos

Um simples exame no interior de uma colméia da Tribo Meliponini nos revela um ambiente notoriamente úmido, particularmente no substrato inferior o que proporciona desenvolvimento de fungos e bactérias.

Para constatar os fungos, basta iluminar a noite, o fundo da colméia, com luz ultravioleta para que os reflexos esbranquiçados revelem a sua presença. As amostras colhidas no fundo observadas ao microscópio revelam os fungos e também uma variedade de bactérias.

Ao nível macroscópico é notória a presença de ácaros e besouros muitas vezes em número elevado que percorrem esse local se alimentando desse material. Esse comportamento mantém a sanidade da colméia, pois alguns desses fungos e bactérias eliminados são patogênicos.

Já alguns antigos pesquisadores como, por exemplo, Von Ihering chamaram atenção para essa atividade saneadoras dos ácaros e relacionaram a sua falta com o desenvolvimento de doenças na fase alveolar.

Nos nossos meliponários também notamos essa coincidência. Ao examinarmos ao nível microscópico as larvas mortas nos alvéolos, constatamos a presença de hifas dos fungos patogênicos.

As abelhas ao constatarem as larvas mortas reagem desmontando os alvéolos e retirando as larvas afetadas. Algumas vezes chegam a desmontar discos inteiros.