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A Prática de roubo nas comunidades das abelhas Nativas

Harold Brand – Biólogo, Meliponicultor e Consultor da APA
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A imagem da abelha na nossa cultura é de um ser extremamente laborioso, organizado, elo importante no equilíbrio da natureza. Fica difícil de aceitar que entre elas exista o hábito de roubo e até guerra de extermínio.

Estudando algumas dessas atitudes não podemos deixar de associar muitos dos exemplos com as da sociedade humana, as semelhanças algumas vezes são assustadoras.

Ao longo dos anos no manejo das abelhas nativas nos meliponários e das pesquisas em campo pudemos colher muitos relatos e observações diretas de exemplos violentos de extermínio, saques e roubo muito sutis ou dissimulados, difícieis de perceber que de uma forma ou outra podem levar a falência da colonia agredida.

Os exemplos:

As abelhas limão, as profissionais do roubo

A Lestremillita limão, abelha anatomicamente desprovida de corbícula, portanto sem opção de se abastecer de alimentos nas flores deve prover o seu alimento no saque de outras abelhas.

O meliponicultor reconhece facilmente essa espécie de abelha por duas características muito peculiares, uma morfologica e outra química.

A característica morfológica marcante é o canudo da saída da colméia, pelo seu tamanho e pelas inúmeras ramificações com muitas protuberências.

A característica química que identifica facilmente essa abelha é o seu forte cheiro, que para nós humanos lembra um limão cortado. São substâncias do grupo dos terpenóides de pequeno peso molecular, muito voláteis, secretados por essas abelhas e usadas principalmente para confundir e desorientar as abelhas da colméia atacada.

Se observarmos com mais atenção o comportamento agressivo veremos que existem ataques com objetivos distintos. Ataque de saque e o ataque de extermínio.

O ataque de saque visa obter suprimentos, matam apenas as abelhas que resistem, a colméia atacada pode se recuperar.

O ataque de extermínio em que todas as abelhas são mortas indistintamente, é uma preparação para a instalação do exame filho da Lestremillita.

O enxame filho tem a vantagem de não necessitar levar o “enxoval”, já que tudo está pronto na colméia conquistada.

A Mandaçaia uma ladra de cera

Essa abelha mansa fácil de manipular é muito prestegiada aqui no Sul pelo seu saboroso e variado mel.

Algumas das suas operárias campeiras se especializam no furto de cera do canudo de entrada das outras espécies de abelhas, como as tubunas e estranhamente até da temida abelha limão. Roubar cera é uma estratégia interessante, pois a energia gasta para produzir cera é muito maior do que produzir mel. (Por exemplo: O custo energético para produzir 1 Kg de cera equivale a 9 Kg de mel no caso da Apis).

No roubo de cera do tubo do canudo da tubuna as abelhas usam a técnica muito conhecida por nós humanos como roubo de “arrastão”, as operárias atuam em grupo de assalto.

No roubo do cerume que constitue o enorme canudo da Lestremellita, as pacatas Mandaçaias atuam indiferentes à má fama da limão, raspando o cerume sem maior cerimonia, transportando nas suas corbículas o produto do seu roubo.

Poderíamos relacionar aqui aquela história do ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.

Jataí invasora  “eventual” de colméias de outras espécies

Nas pesquisas de campo, em contato com pessoas de certa vivência com as abelhas nativas é muito frequente a expressão  “Aqui nesta árvore tinha uma mirim mas foi embora e no mesmo lugar entrou um enxame de Jataí”.

O termo empregado popularmente “elas foram embora” não justifica uma vez que as rainhas fisiogástricas, não voam devido o peso do volumoso do abdômen e em consequência não podem enxamear como fazem as Apis (enxame de abandono devido a carência alimentar).

A resposta para questão veio pela primeira vez no local, que é ilha verde no meio de uma floresta de cimento, a APA do Portão: O seu presidente Gonzaga ( consagrado meliponicultor ) introduziu no local uma colméia de Tubuna alojada em um tronco de 92 Kg.

Essa abelha prosperou no local e serviu como mostruário durante oito anos, até ser atacada e dizimadas, pelas abelhas Jataís, que ocuparam integralmente o espaço conquistado com uma família nova.

Dois meses após esse evento, tivemos outro exemplo, em um pequeno meliponário na Vila Isabel, outra colméia de tubuna dizimadas e o espaço ocupado pela Jataí.

No momento estamos observando outro ataque das Jataís no Meliponário do Xaxim. Dia a dia aumenta o contingente de Jataí voando próximo a entrada da Tubuna. É uma eliminação progressiva de abelhas.

Abelha Uruçu com técnicas altamente sofisticadas de roubo

Algumas técnicas de roubo são muito sutis, de difícil identificação e responsáveis pelas perdas de colonias muito  “caras” para o meliponicultor.

É o exemplo do roubo praticado pela abelha Uruçu em colonias de Bugia (Rufiventtris), que no decorrer do tempo levam à falência da colméia.

“A Técnica”:

É notório que cada colméia tem como identidades o cheiro da espécie e mesmo de cada família em particular, é como um cartão de identidade.Basta as abelhas ladras obterem essa identidades, para ter o passe livre no ambiente da colméia assaltada.

Como a Uruçu obtém o “cartão”? A técnica consiste em pousar na entrada da Bugia, repelida de imediato pela guardiã, se afasta e circula por breve momentos e pousa novamente na entrada e é repelida e assim inúmeras vezes. A cada pousada na entrada ela se impregna um pouco do cheiro da colméia a ser assaltada, até confundir a abelha guardiã. No interior da colméia procura o ninho onde ação é facilitada, as abelhas novas que ocupam o local ainda não tem capacidade de identificar a abelha invasora que passa a roubar o alimento larval dos álveolos ainda abertos.

No decorrer do tempo a colméia parasita vai ao colapso, pois sem alimento larval não ocorre a formação de novas gerações.

Essa técnica seria uma espécie de Cavalo de Troia

LEMBRETE:

O meliponicultor que tem no seu meliponário várias espécies de abelhas nativas como por exemplo Jataí, Tubuna, Bugia, Mandaçaia, Uruçu e outras, deve cuidar ao estabelecer proximidades entre as espécies e ficar atento no relacionamento, principalmente nos períodos de escassez no pasto apícola.